António José Teixeira
António José Teixeira 26 de janeiro de 2018 às 13:00

Folha de assentos

Há um século, Davos começou por ser uma aula de técnicas americanas de gestão para europeus aprenderem. Hoje, serve de montra mundial aos mais poderosos e a alguns emergentes. Trocam-se recados, percebem-se tendências e a conclusão não é animadora: a economia cresce, o proteccionismo também e as desigualdades continuam imparáveis.
provedor. Dois anos após a sua eleição, Marcelo Rebelo de Sousa aumentou, e muito, o seu capital político. De norte a sul, mais ainda do que à esquerda e à direita, soube estar próximo dos portugueses, identificar-se com eles e fazer passar uma corrente afectiva pouco comum. A grande empatia, construída com pequenos gestos de proximidade, trouxe confiança. A cumplicidade com o governo socialista trouxe estabilidade e ajudou ao bom clima económico. E quando o Governo não esteve à altura dos acontecimentos, Marcelo preencheu os espaços fazendo suas as inquietações do País. Há dois anos, assumiu-se "Presidente que não é nem a favor nem contra ninguém". Politicamente. O que não é sinónimo de indiferença. Há poucos meses, numa visita a Andorra, avisou: "Agora viramos à direita, coisa que em Portugal já não faço há algum tempo. De vez em quando, faço, mas a direita não nota, está distraída a bater na esquerda. Em vez de aproveitar, não nota". Quem já notou que com Rui Rio pode ser diferente foram o PCP e o BE. Quererá o provedor Marcelo aproximar o PSD do PS ou o PS do PSD? Belém já mandou dizer que é contra blocos centrais, mas Marcelo e Costa querem compromissos. Ora com uns, ora com outros, diz César. A Carochinha não precisa casar…

imagem. Os politólogos têm em Marcelo Rebelo de Sousa um objecto de estudo precioso. Há poucos dias foi publicado um estudo: "Presidentes e (Semi)Presidencialismo nas Democracias Contemporâneas", organizado por António Costa Pinto e Paulo José Canelas Rapaz (Imprensa de Ciências Sociais). Num dos textos, Susana Salgado diz que Marcelo é um "excelente exemplo de construção de imagem através dos media". Foi assim durante os anos em que geriu, com grande mestria, a incerteza da sua eventual candidatura presidencial ao mesmo tempo que comentava na televisão as sondagens com potenciais adversários. Não precisaria de cartazes nem de outdoors na campanha… Como Presidente, conquistou uma centralidade política mais forte do que os seus poderes. Já tinha acontecido com outros antecessores, como Mário Soares e Jorge Sampaio. Não com Cavaco Silva, de quem Marcelo se distanciou claramente, reestabelecendo a importância da presidência depois de alguns anos de esvaziamento. O regime republicano aparenta vigor.

coesão. A memória dos incêndios deixou dor, destruição, abandono e seca. Terá deixado também a ideia de que mais importante do que um pavilhão multiusos ou uma nova estrada são os sapadores florestais ou a continuidade dos serviços do Estado. Ficou mais clara a percepção colectiva de que a valorização do território se tornou a tarefa fundamental para os próximos anos. Seja no chamado Portugal 2020 ou no Portugal 2030, de que muito se fala a propósito de financiamento europeu, é na gestão do território e no combate às desigualdades que devemos assentar a política. A consciência dos políticos mais experientes aponta nesse sentido. É o que podemos avaliar pela reunião do Conselho de Estado de há uma semana. Questionados pelo Presidente da República sobre as opções para o futuro, os conselheiros apontaram para a coesão social e territorial. É preciso transformá-la em acção política.

wilderness. É a palavra que Jorge Sampaio encontrou para questionar o futuro dos entendimentos que o PCP e o BE celebraram com o PS. Ele conhece como poucos a história e a natureza das forças e fraquezas da esquerda portuguesa: nas lutas estudantis, no Movimento de Esquerda Socialista, na Intervenção Socialista, no PS, em coligação PS/PCP na Câmara de Lisboa, depois alargada à UDP e ao PSR, ou nas eleições presidenciais. A experiência adquirida permite-lhe aferir o estado e o futuro da solução política que nos governa. Em entrevista ao Expresso, diz que o entendimento é positivo e tem funcionado. Mas tem interrogações em relação ao futuro. Desde logo sobre até que ponto o PS estará disponível para "aguentar" a pressão dos parceiros e abdicar do seu programa. Mas também até que ponto PCP e BE quererão ficar com o ónus deste entendimento tantas vezes contraditório. O limite para esta solução, diz o ex-Presidente, "é saber se querem baixar à wilderness". Wilderness remete para um regresso ao estado natural. Na tradução política de Sampaio "é voltar à solidão". A solidão pode ter orgulhos ou preferências. O ónus de romper e o ónus de continuar têm custos. Que peso terão?

aparências. As aparências contam muito, disse o presidente do Supremo Tribunal de Justiça na solenidade da abertura do ano judicial. Não podia estar mais de acordo. A justiça precisa de distância, de formalidade, de cerimonial até. Isso ajuda o respeito e a convicção. Mas mal iria a justiça se se reduzisse à aparência. O discurso de António Henriques Gaspar foi talvez o melhor discurso. Aproveitou a questão das aparências para chamar a atenção dos pares para o facto de os seus preconceitos ou pré-juízos estarem aquém ou irem além da liberdade de expressão e afectarem a imparcialidade a que estão obrigados. O problema maior é que as aparências confirmam algumas vezes preconceitos reais que se tornam sentenças. O adultério como justificação da violência é uma das mais recentes. Podemos invocar a cultura para desculpar o erro. Não me parece que se deva aplicar a violações dos mais elementares princípios do Direito. Ou seja, espera-se mais veemência do Supremo Tribunal. De resto, retive as justificadas preocupações sobre a qualidade da justiça, mais importante do que os bons números da estatística.

davos. Os grandes do mundo reúnem-se todos os anos em Davos. Não apenas os grandes, mas também aparentados e emergentes. A ideia dos fundadores do encontro é contribuir para a melhoria do estado do mundo. No começo, há um século, empenhavam-se em contagiar as empresas europeias com técnicas de gestão americanas. Hoje, as preocupações são outras. Os europeus rebelam-se contra o proteccionismo americano. Três declarações ajudam a perceber o tom. Emmanuel Macron: "Se não podes garantir às pessoas que a globalização é boa para elas, haverá nacionalistas e extremistas que quererão desfazer o sistema, e ganharão". Paolo Gentiloni, primeiro-ministro italiano: "A desigualdade continua a aumentar, alcançando níveis intoleráveis, incluindo agora que regressou o crescimento. Não podemos acabar num mundo com uma elite cosmopolita e um exército de trabalhadores insatisfeitos". Angela Merkel questionou-se: "Aprendemos realmente as lições da História, das catástrofes provocadas pelo homem no séc. XX? Creio que não. O proteccionismo não é a solução". Talvez a Europa recupere a memória e faça frente a Trump e a alguns autocratas poderosos.


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