Manuel  Falcão
Manuel Falcão 02 de fevereiro de 2018 às 10:00

A esquina do Rio

A maior prova de que vivemos novos tempos veio de uma afirmação proferida esta semana por Assunção Cristas: "Conto com o PSD para uma alternativa às esquerdas unidas."
Back to basics
É provável que um poeta que lê em público os seus versos possa ter outros maus hábitos.
Robert A. Heinlein

Encruzilhada
A maior prova de que vivemos novos tempos veio de uma afirmação proferida esta semana por Assunção Cristas: "Conto com o PSD para uma alternativa às esquerdas unidas." Com esta simples frase, a líder do CDS alterou a ordem dos factores e colocou o seu partido na liderança da oposição, que efectivamente tem assumido, colocando o PSD na posição subalterna. A frase e a sua circunstância mostram a situação a que o PSD chegou - e que Nuno Garoupa bem dissecou numa série de artigos. Mas outro facto político surgiu esta semana e é o mais significativo na área social-democrata: Carlos Moedas e Pedro Duarte anunciaram que vão apresentar uma moção ao Congresso em que é patente, pelas primeiras coisas que se conhecem, que desejam sair do dogma, agitar as águas e levar o partido e os seus militantes a pensar. No fundo, o que esta moção de Carlos Moedas e Pedro Duarte pretende é começar a trabalhar num novo posicionamento do seu partido. O PSD, com as suas contradições e indefinições, chegou àquela situação que atinge por vezes alguns fabricantes automóveis: fazem veículos que andam, mas incaracterísticos, e, num doloroso processo, perdem adeptos e destroem o valor da marca. Andar, anda - mas não seduz nem marca a diferença. Se acrescentarmos a isto a recente proposta de iniciativas da sociedade civil para alterar a lei eleitoral de forma a criar círculos uninominais, podemos dizer que existe um clima de mudança. Vamos é ver se os partidos e a Assembleia da República querem olhar para o passado ou perceber o futuro.

Dixit
"Temos de escolher se queremos dívida ou independência."
António Barreto

Semanada
 As famílias portuguesas devem mais de 25 mil milhões aos bancos, o maior número dos últimos quatro anos  os bancos estão a conceder uma média de 350 milhões de euros por mês para crédito ao consumo; em 2017, foram importados mais de 60 mil veículos usados do estrangeiro e as marcas que mais subiram foram a Tesla e a Porsche  em 2016, saíram de Portugal 1,7 mil milhões de euros para "offshores" sob escrutínio da União Europeia  cada jornada de futebol movimenta 340 milhões de euros em apostas e um Benfica-Sporting pode chegar aos 100 milhões de euros  o IMT teve uma receita recorde de 851 milhões de euros em 2017 graças à bolha no sector imobiliário  Castro Marim e Vila do Bispo (no Algarve) e Santa Cruz (na Madeira) foram os três concelhos onde o poder de compra "per capita" mais desceu nos últimos dez anos; o Estado não sabe quantas crianças estrangeiras estão institucionalizadas em Portugal, em situação irregular e sem apoios  1.637 pessoas pediram a nacionalidade portuguesa nos últimos seis meses, mas apenas quatro pessoas já a viram reconhecida, um deles um brasileiro arguido no processo Lava Jato  em 2016, a entrada de portugueses nos Estados Unidos aumentou 17% superando, pela primeira vez desde 2007, os mil pedidos de vistos de residência num só ano; em 2017, registaram-se 678 casos de violência contra profissionais da saúde  a Autoridade da Concorrência tem "sérias dúvidas" na fusão da TVI com a MEO; há um juiz acusado de vender sentenças.

Folhear
A edição de Fevereiro da revista Wallpaper é o número dedicado à atribuição dos prémios anuais de design, um dos momentos altos da publicação ao longo de todo o ano. A revista, fundada por Tyler Brûlé (que depois fez a Monocle), tem conseguido manter-se como uma referência de grafismo e de montra do melhor que é produzido em termos de arquitectura, design de mobiliário, de objectos, de acessórios e de moda. Na capa desta edição está a impressionante escadaria desenhada por Gwenael Nicolas para unir os seis andares da nova loja da Dolce & Gabanna em Mayfair, Londres - uma obra que depois é detalhadamente explicada no interior da revista e que obviamente ganhou um dos prémios. Os trabalhos escolhidos para os prémios de design proporcionam uma galeria de ideias e criatividade nas mais diversas áreas, com informação sobre os seus autores - e todos dizem respeito a peças que estão em produção e comercialização. É verdadeiramente impressionante folhear esta edição da Wallpaper e ir descobrindo as boas ideias, quer seja a surpreendente fachada do novo Museu do Design do Victoria & Albert, ou a decoração de restaurantes, quer seja ainda uma ampla mesa de sala de jantar de dimensões variáveis ou até um escorrega feito de vidro. A terminar, uma boa notícia: o prémio para o melhor novo hotel foi para o Santa Clara 1728, um projecto de Manuel Aires Mateus, que pertence ao hoteleiro João Rodrigues.

Não gosto
Da sucessão permanente de casos de vigarice e de corrupção ligados ao mundo dos clubes de futebol e que se estendem a magistrados e políticos - o futebol tornou-se perigoso fora dos estádios. 

Gosto
O Novo Banco vai ceder obras da sua colecção para exposição em museus públicos e a colecção de fotografia, uma das melhores a nível internacional, será depositada provavelmente em Coimbra, para que fique disponível ao público em permanência. 

Ver
Paulo Brighenti tem vindo a revelar-se como um dos mais interessantes artistas plásticos portugueses contemporâneos. Sem abandonar algumas linhas mestras que têm norteado a sua obra, vai experimentando novas técnicas e trabalhando sobre materiais por vezes inesperados - como é o caso em "Três Estações Nocturnas", a exposição que esta semana abriu na Baginski, e que é a sua quarta mostra individual na galeria.
A partir do poemário "Noite de Pedra", do escritor e artista plástico português Luís Veiga Leitão, Brighenti trabalha pintura a óleo aplicada sobre linho, com recurso a uma técnica antiga baseada na utilização de cera derretida, a encáustica. Noutros momentos, inventa esculturas com base em matérias naturais, búzios de grandes dimensões, com uma face coberta de grés pintado e ainda, pontualmente, gravura. É uma exposição forte e surpreendente mesmo para quem tem seguido a obra de Brighenti, um momento marcante de afirmação com múltiplas leituras entre a evocação da natureza e a alteração surreal dessa mesma natureza. A exposição (na imagem) ficará até 3 de Março na Baginski, Rua Capitão Leitão 51.
Outra exposição marcante desta semana é "poetry as art as poetry", de Pedro Proença (aliás John Rindpest), como o próprio artista sublinha. Aqui, a matéria-prima de Proença Rindpest é a palavra e a manipulação, que pode ser feita da sua imagem - quer isoladamente em letras, quer em frases - assumindo a forma de um quase manifesto, com múltiplas citações de clássicos e evocações de textos de origem diversa. A mostra foi organizada pela Galeria Bessa Pereira e está na Fundação Portuguesa das Comunicações (Rua do Instituto Industrial 16). Nas montras do British Bar está a décima série de obras expostas com curadoria de Pedro Cabrita Reis, trabalhos de Vasco Araújo, Joaquim Bravo e Rosa Carvalho. Na Galeria Vera Cortês, em Alvalade, Vihls (Alexandre Farto) mostra "Intrínseco", oito painéis que pretendem abordar os problemas da vida urbana.

Arco da velha
Estão avariados todos os helicópteros Kamov pertencentes ao Estado e que deviam ser usados no combate a incêndios e transporte urgente de doentes. 

Ouvir
Nos anos 60, a BBC gravou ao vivo, nos seus estúdios, o surgimento da pop e do rock britânicos. Os grandes nomes passaram pelos seus programas e tocaram ao vivo - quer para programas de rádio quer para a televisão. Os Rolling Stones não foram excepção e, entre 1963 e 1965, estiveram presentes numa série de programas como "The Joe Loss Pop Show", "Top Gear", "Saturday Club" ou "Blues In Rhythm". Aos poucos, essas gravações foram sendo editadas e, no final do ano passado, nos seus BBC Records, a estação britânica lançou a colectânea "On Air" (De Luxe), que agrupa gravações de 32 temas gravados ao vivo pelos Rolling Stones em diversas ocasiões, nos anos já referidos. Aqui estão as canções mais conhecidos dessa época, desde o incontornável "Satisfaction" (num registo feito poucos meses depois do single original e com algumas diferenças) até "Come On", passando por versões de canções como "Mercy, Mercy", "Carol", "I Just Want To Make Love To You", "Beautiful Delilah" ou ainda "I Wanna Be Your Man", um tema que Lennon e McCartney cederam aos Stones e que eles aqui executaram com maior energia que o original dos Beatles. O som é o da rádio de então, muitas vezes com a assistência a manifestar-se ruidosamente e as misturas recuperam o espírito da época. Na verdade, estas 32 gravações contam a história de como os Rolling Stones passaram de um grupo que executava com competência versões de clássicos dos blues e de R & B para uma criativa e irresistível banda que então levou o rock'n'roll a novas dimensões. The Rolling Stones , On Air, disponível no Spotify.

Provar
Uma das boas coisas dos últimos anos é o renascer de padarias onde o pão é feito de forma artesanal. A mais interessante que surgiu em Lisboa é a Gleba, junto à Praça da Armada, perto de Alcântara. Obra de uma equipa jovem que se dedicou a recriar o método tradicional de fazer pão, a Gleba só utiliza variedades antigas e sustentáveis de cereais cultivados em Portugal. A moagem decorre nas suas próprias instalações, em mós de pedra como as antigas, e o pão é feito na máximo três horas depois da moagem do cereal - o que garante a sua frescura. Na Gleba, um ciclo de produção de pão demora um dia inteiro, desde a moagem à preparação da massa e sua cozedura. Farinhas de cereais portugueses, sal marinho integral e água são os ingredientes utilizados nas três variedades habituais da casa: broa de milho do Minho, pão de centeio verde de Trás-os-Montes e pão de trigo barbela, também de Trás-os-Montes. Todas as semanas há edições especiais, que podem ser consultadas na página de Facebook da Gleba. Este fim-de-semana, por exemplo, ao sábado, haverá pão com batata-doce amarela e pão de figos e canela; ao domingo, pão de figos e amêndoa e pão com bagas de sabugueiro. A Gleba está aberta das 10 às 20 de quarta a domingo e, para o fim-de-semana, é imperioso encomendar o pão que se pretende (uma das três variedades habituais já referidas ou as edições especiais) via SMS para o 966 064 697. As encomendas devem ser feitas até às 20 horas de sexta-feira. Provem que vale a pena - eu sou fã do pão de trigo barbela, bem cozido, com a crosta escura e estaladiça.


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