Luís Marques Mendes
Luís Marques Mendes 18 de fevereiro de 2018 às 21:16

Escolha de Elina Fraga "é uma imprudência e só poderá dar dores de cabeça"

As notas da semana de Marques Mendes nos seus comentários na SIC. O ex-ministro e antigo líder do PSD analisa o congresso dos social-democratas.

O CONGRESSO DE RIO

 

  1.      Este Congresso não oficializou apenas a mudança de líder. É muito mais do que isso. É uma mudança de ciclo político no PSD. Muda quase tudo em relação a Passos Coelho – muda o estilo, o posicionamento do PSD, o discurso e a forma de fazer oposição.

a)     Muda o estilo – Rui Rio deu hoje um sinal de um estilo novo. Ele não falou como líder tradicional da oposição. Falou sobretudo como candidato a Primeiro-Ministro. É um discurso pouco comicieiro e mais racional. Não gera emoção nos militantes. Mas é talvez mais eficaz no país.

b)     Muda o posicionamento do PSD – Com Passos Coelho, o PSD estava demasiado acantonado à direita. Com Rio, o partido virou ao centro. Fica mais social-democrata. Com mais preocupação social. Só na política económica é igual a Passos. E esta mudança é essencial. Se o centro for deixado todo para o PS, Costa ganha e até pode ter a maioria absoluta.

c)      Muda o discurso – Com Passos Coelho, o discurso era excessivamente concentrado nas questões económicas e financeiras. E isso era redutor. Agora, o discurso é mais abrangente – a natalidade, a segurança social, a descentralização, a saúde.

d)     Muda o modo de fazer oposiçãoAté agora, a oposição era quase só crítica e contestação. Agora, é crítica e contestação, mas é também diálogo e abertura para acordos de regime. O país ganha com isso e Rui Rio ganha prestígio e credibilidade.

 

  1.      Três reservas finais: unidade, renovação e propostas concretas:

a)     UnidadeRio esteve bem em patrocinar um acordo com Santana Lopes. Foi um gesto inteligente. Mas tem de ter atenção a este facto: a unidade faz-se sobretudo na acção. Se houver causas concretas na acção, o partido reforça a unidade. Se não houver, volta a dividir-se.

b)     Renovação de pessoasNas escolhas para a direcção política, Rio ficou aquém das expectativas. Eu diria o seguinte: o que é bom não é novo (David Justino, Morais Sarmento, Castro Almeida); o que é novo não é bom (é o caso de Elina Fraga).

  •        Esta escolha é uma imprudência e só poderá dar dores de cabeça. Não é tanto pelo facto de, enquanto bastonária dos advogados, Elina Fraga ter estado contra o governo anterior. É sobretudo pelo facto de esta escolha representar uma cedência ao populismo desenfreado.

c)      Finalmente, uma omissão: faltam propostas concretas. Hoje disfarçam-se. No futuro, são absolutamente essenciais para dar consistência ao novo discurso.

OS CUIDADOS QUE RIO DEVE TER

 

  1.      Evitar ser um político de ideias geraisRio tem uma característica muito vincada: tem uma enorme tendência para diagnósticos e generalidades. Agora tem de mudar. Tem de ter propostas concretas. Exemplos: sistema político – que modelo propõe? Maior celeridade da justiça – como? Desenvolver o interior – de que maneira?

 

  1.      Evitar os temas de política pura, como a reforma do sistema político, reforma do Estado, Bloco Central. Tudo isto, em geral, não diz nada aos cidadãos. É preciso falar para as pessoas – os jovens, os idosos, a classe média, os trabalhadores, os empresários.

 

  1.      Acelerar Acordos de RegimeSe Rio quer fazer acordos de regime com o Governo, que os faça já. O mais tardar até ao Verão. Quanto mais rápido melhor. Dá-lhe estatuto, prestígio, credibilidade. Quanto mais próximo das eleições pior.

 

  1.      Tem de cuidar do factor tempoRui Rio tem de acelerar a criação de uma alternativa. Porque não tem muito tempo. As eleições são já para o ano. Isto é como se fosse um jogo de futebol, que está no intervalo. E que está a perder. Tem de recuperar rapidamente. Não pode repetir o que fez agora – estar um mês parado e calado. Isso pode ser fatal. 

 

O NOVO CICLO

 

O que é que a liderança de Rio muda nos outros partidos?

a)     CDS O CDS vai querer isolar-se do PSD. Prosseguir uma estratégia autónoma do PSD. Tentar invadir até algum espaço do PSD. Tenho dúvidas que tenha sucesso nessa estratégia. É legítima mas dificilmente será rentável. Basta ver que o PSD não existe há 5 meses e o CDS não ganhou nada com isso, de acordo com as sondagens.

b)     PCP e BEVão ficar incomodados com os acordos que Rio faça com António Costa. Mas não mais do que isso. PCP e BE estão firmes no apoio ao Governo. Vão demarcar-se em várias matérias (caso da Europa e da legislação laboral). Mas querem esta solução governativa agora e no futuro. Não querem passar à oposição.

c)      PSQuanto ao PS, o PS vai ter uma dificuldade e no final pode ter uma vantagem:

  •        O PS não vai criticar muito Rui Rio. Precisa dele para acordos de regime e pode precisar dele a seguir às eleições de 2019, se não tiver maioria e se uma nova geringonça falhar;
  •        O PS não pode criticar Rio com os mesmos argumentos com que criticava Passos Coelho – Rio não teve nada a ver com a troika, com o governo anterior ou com o discurso do diabo;
  •        O PS, caso ganhe sem maioria as eleições de 2019, vai optar por uma solução à esquerda (uma nova geringonça) mas vai querer manter sempre Rio no engodo, no suspense e na expectativa de poder fazer parte da solução. 
  •        Ou seja, criticar Rio não é tão fácil como criticar Passos. Essa é a dificuldade. Mas também pode ter uma vantagem. No momento em que faça acordos de regime, Costa cria a imagem de um político que dialoga com todos, à esquerda e à direita. E isso é uma mais-valia.

 

O ANÚNCIO DE MONTENEGRO

 

  1.      O discurso de Montenegro é, sem dúvida, a grande surpresa do Congresso. Foi uma intervenção corajosa, estruturada e clarificadora. Uma intervenção absolutamente marcante e com vários significados:

a)     Primeiro: Luís Montenegro emancipou-se de Passos e ganhou personalidade própria. Foi leal a Passos enquanto houve Passos e afirmou a sua autonomia quando Passos Coelho saiu;

b)     Segundo: antecipou-se a todos os potenciais futuros candidatos a líder do PSD e colocou-se como reserva do futuro. É quem está na pole position para um dia suceder a Rui Rio. Vai ser líder, só não se sabe é quando.

c)      Terceiro: fez uma intervenção própria de um líder. Esta intervenção tem coragem; tem pensamento político; tem desprendimento dos lugares (o anúncio de que deixa de ser deputado); e tem uma antecipada declaração de candidatura.

d)     Finalmente: dir-se-á que foi uma intervenção inoportuna. Não acho. Basta conhecer a história do PSD para perceber que isto é o normal. Isto sucedeu muitas vezes na história do PSD – o partido aclamar 1 líder e no mesmo momento ovacionar o potencial líder seguinte. O PSD gosta de ter sempre uma reserva para o caso de o líder actual falhar. É o instinto de sobrevivência do PSD. É como quem diz: se este falhar, já temos quem o substitua.

 

  1.       Em conclusão, este Congresso foi uma caixinha de surpresas:
  •        Entronizou um líder – Rui Rio.
  •        Sinalizou o líder seguinte – Luís Montenegro.
  •        E assistiu ainda a outra curiosidade – Pedro Passos Coelho. No momento da despedida fez uma intervenção que foi tudo menos uma intervenção de despedida. Estava cheia de recados e cheia de futuro. Vê-se que não queria sair e que não exclui voltar.

 

O CRESCIMENTO DA ECONOMIA

 

  1.      Portugal cresceu este ano 2,7%. É um excelente resultado. O melhor desde o início do século. Mas atenção!

a)     Primeiro: é uma tendência europeia e não só mérito nosso. Todos os países estão a crescer.

b)     Segundo: mesmo crescendo bem, a maior parte dos países da UE e da Zona Euro cresceu em 2017 mais do que nós (e muitos acima de 3%).

c)      Terceiro: em tempo de vacas gordas, devíamos aproveitar para ter políticas internas que nos permitissem duas coisas: crescer mais; e resolver alguns problemas estruturais que temos, caso da competitividade.

 

  1.      Politicamente falando, há 2 conclusões a tirar:

a)     Primeiro: este é o grande abono de família do Governo. Com um país a crescer, a criar riqueza e a gerar emprego, é muito difícil um governo não ser popular;

b)     Segundo: este é o grande pesadelo da oposição, em especial do PSD. Usando a imagem da formiga e da cigarra, há que dizer:

  •        Durante anos, o PSD era a formiga e o PS a cigarra. O PSD tratava de criar riqueza e o PS tratava de a distribuir.
  •        Hoje, a realidade mudou. O PS é tudo. É a formiga e a cigarra. Tem o país a crescer. Tem as contas em ordem. E distribui os rendimentos. É muito difícil ser-se oposição nestas circunstâncias. 

 

NOVOS IMPOSTOS NA EUROPA

 

  1.      O Governo anunciou a sua intenção de propor a criação de 3 impostos europeus: um, sobre as plataformas digitais; outro, sobre as empresas poluidoras; um terceiro, sobre as transações financeiras.

 

  1.      O que dizer sobre esta ideia?

a)     Primeiro: a ideia não é nova. Já em 1999 Mário Soares (então candidato ao PE) defendeu a ideia de impostos europeus. O mesmo fez Vital Moreira em 2009 (também candidato ao PE). Num momento e noutro caiu-lhes em cima o Carmo e a Trindade. Mas eles tinham razão. Só que ter razão antes do tempo não é, às vezes, uma grande virtude.

b)     Segundo: esta proposta de António Costa não é original. É uma cópia. Esta ideia está no Relatório do Parlamento de 10 de Janeiro deste ano, que vai ser votado no próximo mês. Ou seja, o Governo não inventou nada. Limitou-se a seguir a moda europeia.

c)      Terceiro: mas o caminho está certo. Porquê?

  •        Porque a Europa vai passar a ter mais responsabilidades e menos dinheiro;
  •        Mais responsabilidades – na segurança e defesa; nas migrações; na inovação; no financiamento da competitividade da Zona Euro.
  •        E menos dinheiro – com o Brexit, são 10 a 12 mil milhões de euros do RU que deixam de entrar no orçamento da União.
  •        Logo, como não se fazem omeletes sem ovos, tem de haver alternativas financeiras.

d)     Finalmente, para Portugal é a melhor solução:

  •        Se a UE tiver menos dinheiro, haverá menos fundos para Portugal;
  •        Se as novas receitas vierem do OE em vez de impostos europeus, é mais um custo para os contribuintes portugueses.
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