António José Teixeira
António José Teixeira 02 de março de 2018 às 13:00

Folha de assentos

A abundância de mentiras e injustiças cria perplexidades e revoltas crescentes. A comunicação abriu espaço às emoções e a política perdeu racionalidade. Não espanta que muitos se virem para demagogos perigosos. Precisamos de braços responsáveis.
braços. O PSD está disponível para dar o braço ao Governo. O Governo não tem braços para dar a todos. Esta troca de braços surgiu a pretexto dos fundos europeus que iremos negociar em Bruxelas. Poucos dias depois de eleita a nova direcção do principal partido da oposição, sentaram-se à mesa o vice-presidente Castro Almeida e o ministro Pedro Marques. O resultado traduziu-se na ideia de entendimento. Divergiram na proximidade dos braços. Quem dá o braço a quem é um dilema que pode provocar ciúmes. E António Costa passou o debate parlamentar quinzenal a acarinhar os seus parceiros à esquerda enquanto via, "com gosto", Fernando Negrão "retomar a normalidade". PCP e BE estão desconfiados da convergência com o PSD. Jerónimo de Sousa recorda Guterres e diz mesmo que "isto não vai lá com geometrias variáveis". Há consensos abertos a todos e promessas aos aliados de cumprimento do que foi combinado. Com a economia a mostrar bons resultados, Costa quer continuar o caminho pela esquerda, mas reforçando a sua centralidade. Que caminho escolherá Rio? Ou que caminho lhe resta? Para já, é uma incógnita.

arruada. Assunção Cristas fez esquecer Paulo Portas, pelo menos até ver. Foi ele que a trouxe para a política partidária e foi nela que apostou quando se tratou de virar a página. Leva dois anos de liderança e o balanço é positivo. Uniu o partido, construiu uma agenda e sobressaiu nas autárquicas de Lisboa. Precisa de mais. Depois de o Parlamento ter inviabilizado o governo da coligação vencedora, mas minoritária, o CDS foi rápido a perceber que o tabu do entendimento à esquerda tinha acabado.

Doravante, quem quiser governar terá de assegurar uma maioria na Assembleia da República. Ou seja, o apelo ao voto útil perdeu força, o que pode favorecer o CDS. A poucos dias do congresso de Lamego, Cristas ganha ambição, convencida de que pode conquistar espaço eleitoral. A guinada social-democrata de Rui Rio poderá ajudar. Mas não é líquido que haja vasos comunicantes entre PSD e CDS. É tão provável como entre PSD e PS. Certo é que Assunção Cristas está há muito em campanha. No dia seguinte ao Congresso do PSD fez uma arruada no… Porto. Rio que se cuide.

perigo. Os italianos vão a votos e a confusão política é grande. À direita e à esquerda há uma divisão profunda, o que tem provocado grandes manifestações centradas no fascismo e no antifascismo. A imigração é o tema principal da campanha. Numa sondagem do La Repubblica, 31% dos italianos dizem que a imigração é o maior problema do país; 71% dizem que o número de imigrantes é muito elevado e 64% avalia negativamente a gestão da imigração pelo governo. Uma figura tem vindo a ganhar destaque: Matteo Salvini, o líder da Liga do Norte, que jura a Constituição de terço na mão e se rebela contra o "antifascismo raivoso que incendeia praças". O seu lema é "Italianos primeiro", o lema de Trump, que também Rui Rio adoptou… Além de Trump, admira Putin e é aliado de Marine Le Pen. Quer encerrar as mesquitas e deportar imigrantes em 15 minutos. A fragmentação partidária não permite antecipar um vencedor este domingo. Esperam-se alianças e Berlusconi terá de novo um papel porventura decisivo. Um cenário perigoso para a Itália e para a Europa.

perplexidade. Daniel Innerarity tem um novo ensaio. Chama-se "Política para Perplexos" e regressa ao mal-estar difuso de que se tem ocupado nas últimas obras. Reflecte sobre uma sociedade desiludida, decepcionada com os poderes, que perdeu esperança na política, tolhida pela incerteza, logo perplexa. Para este estado de perplexidade Innerarity prescreve instruções de sobrevivência. Não são conselhos, mas um roteiro de armadilhas, que merece atenção. Atenção à confusão gerada pela mescla de factos, interpretações e desejos. E à facilidade com que assimilamos teorias da conspiração. Atenção ao espaço que a comunicação abriu às emoções e que escapa à racionalidade da política. Atenção ao alargamento das controvérsias e dos paradoxos, à medida que as aparências iludem e são necessárias respostas para novos problemas e outras saídas para os que continuam problemas. Atenção à degradação democrática que a era de Trump acentuou.

Atenção à urgência de configurarmos sistemas de governação inteligentes, que melhorem a vida colectiva em termos de responsabilidade e sustentabilidade. Muitos palavrões para garantirmos futuro a sociedades sedentas de racionalidade.

mentiras. Multiplicam-se as notícias sobre a fabricação russa de mentiras em todo o tipo de redes de comunicação. Putin passa por ter ao seu serviço centenas de pessoas cuja missão é criar campanhas de intoxicação e sabotar processos eleitorais. Repetem-se os testemunhos que o comprovam. Um dos exemplos mais recentes é a "notícia", publicada pelo tabloide alemão Bild, que referia a inscrição de um cão no referendo interno do SPD, que hoje termina, e em que se levou a votos a grande coligação com a CDU de Angela Merkel. Atribuída à Rússia, a tentativa de desacreditar o processo eleitoral obrigou os responsáveis do SPD a um grande esforço para desmentirem a invenção nas redes sociais. A "notícia" surgiu associada ao líder da juventude do SPD, que combate a coligação. O cão e outros derivados ocupam espaço, o que quer dizer que afastam do debate temas importantes. A manipulação das redes de comunicação e a produção de boatos preocupam as instituições, mas pouco se tem feito para as contrariar. A União Europeia anuncia para a Primavera alguns antídotos. Aguardemos.

jovens. Não embarco na ideia de que hipotecámos o futuro das gerações mais novas. Há um progresso educativo e um conhecimento adquirido incomparáveis quando olhamos para os antecessores. A tal geração mais bem preparada de sempre cresceu num ambiente social de maior conforto. Sendo tudo isto constatável, não é menos verdade que as oportunidades de trabalho e de remuneração se degradaram, o que limita as possibilidades de desenvolvimento social. Ter uma casa ou constituir família tornaram-se mais difíceis. O relatório europeu da Caritas sobre os jovens é um grito de alerta: salários baixos, trabalho continuadamente precário, formação desadequada ou de pouca qualidade... Está a aumentar o risco de pobreza, como os números do Eurostat comprovam. Na faixa entre os 16 e os 29 anos, a percentagem dos que trabalham e possuem um rendimento disponível abaixo do limiar da pobreza cresce. Em 2012, os jovens em risco eram 7,4%. Em 2015, o valor chegou aos 10%. Salta à vista que é preciso melhorar os salários e que essa melhoria será um factor de crescimento económico e social. Este não é um problema do futuro, mas do presente. É urgente mais justiça geracional.


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