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António José Teixeira 29 de Março de 2018 às 13:00

Folha de assentos

A escalada de expulsões de diplomatas e espiões lembra a guerra fria do tempo dos sovietes. Mas a guerra convencional está quente em muitas paragens. E escalda mesmo quando percebemos os mecanismos da manipulação política no mundo digital. Que será mais preocupante para o movimento internacionalista de solidariedade: o veneno russo ou a ciberguerra?

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fria. As repetições da História são sempre imperfeitas, mas é claro o refluxo que nos conduz à memória da guerra fria. As expulsões de diplomatas em resposta e retaliação ao envenenamento, com um gás tóxico, de um antigo espião russo refugiado em Inglaterra revelam um clima de tensão mais acentuado. Muitos países solidarizaram-se com o Reino Unido e hostilizaram Putin. A maioria são da UE, curiosamente - como notou uma porta-voz do Kremlin -, a mesma União que os britânicos querem abandonar. Muitas dezenas de diplomatas russos regressam a Moscovo e outros tantos ocidentais serão obrigados a sair da Rússia. Este clima não é novo. No final do mandato, Obama expulsou dezenas de agentes russos e aplicou sanções à Rússia pela interferência nas presidenciais americanas. Moscovo não abdicou de interferir nos processos eleitorais a Ocidente e de disputar espaços permeáveis, contando até com a complacência de Donald Trump. Agora, a pressão britânica e da Nato e o acosso da justiça americana, que investiga as ligações russas de Trump, não deixaram alternativa à administração dos EUA. A escalada está aí. Aguardemos os passos seguintes. A guerra parece fria, mas aqueceu no mundo digital e nunca deixou de cheirar a pólvora em muitos pontos do nosso globo. 

electricidade. Há 100 anos, o socialismo era definido na Rússia como a soma dos sovietes mais a electricidade. Hoje, "os dados são a nova electricidade", diz Christopher Wylie, o cérebro da Cambridge Analytica, que desenhou o arsenal de ciberguerra da ultradireita americana. As informações sobre tudo e sobre todos, que se recolhem em contínuo nas redes sociais e são operacionalizadas por algoritmos para construir perfis, serviram para campanhas políticas cirúrgicas como foram as das presidenciais americanas e do Brexit. Wylie denunciou esta semana a maquinaria de guerra que ajudou a construir. E foi categórico: "O Brexit não teria sucedido sem Cambridge Analytica". O curioso desta história é que não há veneno russo nestas operações de larga escala movidas a partir do Reino Unido e dos EUA. É decerto uma coincidência que o movimento de expulsões surja quando as operações da Cambridge Analytica (onde pontuava Steve Bannon, um estratega de Trump) ganham uma evidência ameaçadora para britânicos e americanos… 

incêndios. As tragédias do ano passado foram tão grandes que não podiam fugir da ordem do dia. Ainda bem. O Estado falhou em toda a linha, como voltou a comprovar a Comissão Técnica Independente. O País estava demasiado impreparado para fazer face à intempérie. Ainda está. Nem por isso conseguimos um compromisso largo quando se trata de mobilizar o País para a prevenção. Numa iniciativa da Associação Nacional de Municípios, governantes e Presidente da República promoveram no fim-de-semana uma "acção de comunicação" (Rui Rio chamou-lhe "marketing") destinada a chamar a atenção para a urgência de prepararmos o terreno para a melhor resistência ao fogo. Nem o Governo, nem os municípios, nem as instituições mais ligadas a este combate, nem os cidadãos em geral, fizeram o suficiente para ordenar a floresta e o território. Não são demais as campanhas de comunicação. São demais os aproveitamentos oportunistas. E de menos o escrutínio sobre o que importa corrigir e fazer e o envolvimento concreto numa mudança em que corremos contra o tempo. Há muito por fazer na prevenção e no combate e o Governo tem especiais responsabilidades. Mas os dirigentes partidários estão equivocados se pensam que este é um campo de campanha eleitoral. 

desigualdades. Um dos grandes fracassos do nosso tempo é a pobreza que estamos a oferecer às gerações mais bem preparadas de sempre. Os menores de 30 anos foram os mais castigados pela crise. Atestam-no as elevadas taxas de desemprego e as baixas remunerações. Não são os únicos, mas têm sido um alvo preocupante não apenas pelo cenário sombrio que os atinge, mas pelo que se projecta para o futuro. Basta pensar que as pensões de hoje e de amanhã dependem dos salários em pagamento. Sem bons salários não há boas pensões. O que ajuda a perceber uma greve surpreendente, de 14 dias, dos professores de 64 universidades britânicas. Motivo: um corte nas pensões e o seu pagamento em função do desempenho da Bolsa de Valores. Os salários têm vindo a degradar-se e as pensões vão pelo mesmo caminho. Há professores que já calculam que as suas pensões não irão ficar muito acima do salário mínimo. Perspectivas negras numa época de enormes desigualdades. O diagnóstico de Stiglitz é claro: "O motivo pelo qual as economias norte-americana e europeia não têm gerado emprego prende-se com o facto de a estagnação de rendimentos se traduzir na estagnação da procura". O agravamento das desigualdades não é inevitável. É uma questão política. 

armas. A proliferação de armas, sem restrições, e as matanças continuadas têm motivado uma onda de revolta sem precedentes nos EUA. Como têm sido as escolas os palcos principais dos tiroteios, adolescentes e jovens, acompanhados de pais e avós, mobilizaram-se em protestos por muitas cidades americanas. Muitos exigem controlo e restrições de armas numa altura em que Donald Trump quer armar os professores para defender os alunos, diz ele. Imagina-se que, pelo mesmo princípio, se um insano professor disparar sobre os alunos, Trump arme também os alunos… A verdade é que há mais armas do que pessoas nos EUA. E um jovem pode ser impedido de beber uma cerveja, mas é livre de comprar qualquer arma. A história é antiga e repetida. E nem a história dos povoadores nem os direitos constitucionais chegam para a perpetuação e o agravamento da barbárie. Como se a protecção das armas e do lóbi das armas valessem mais do que as vidas humanas. As sondagens mostram que uma grande maioria dos americanos quer maiores restrições à compra de armas. Em Novembro, há eleições legislativas e parecem desenhar-se condições para uma travagem na corrida ao armamento privado. Haja esperança. 

expedicionário. O historiador Filipe Ribeiro de Meneses já tinha mergulhado na história da participação portuguesa na I Guerra Mundial, fosse no estudo da I República, fosse num capítulo do livro «Impérios em Guerra 1911-1923», em que escreveu sobre o império português e nos recordou que o nosso envolvimento na Guerra começou bem cedo (1914), em Angola e Moçambique, onde as nossas posições foram atacadas pelos alemães. A entrada de Portugal no conflito arruinou muitas vidas, a economia e a nossa credibilidade. As baixas em África foram ainda maiores do que as do Corpo Expedicionário Português em La Lys. Os números oficiais apontam para 3800 mortos entre os soldados enviados para Angola e Moçambique, além de mais 270 mil vítimas entre os civis africanos. A poucos dias de assinalarmos os 100 anos da batalha da Flandres, Ribeiro de Menezes revisita a história desses anos com um pormenor que não conhecíamos no livro "De Lisboa a La Lys" (D. Quixote). Neto do oficial Mário Ribeiro de Menezes, que combateu e sobreviveu em La Lys, o historiador conclui que aí "findou o sonho de uma República capaz de transformar os destinos de Portugal, do seu domínio colonial e dos portugueses de todo o mundo". 

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