Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 16 de maio de 2018 às 21:50

O espelho quebrado

O PS criou para si próprio a imagem de "partido-charneira", aquele que estabelece o equilíbrio entre os extremos, impede a radicalização de um lado ou de outro, e pode permanecer sempre no poder.

A FRASE...

 

"Assistimos a uma tentativa desesperada deste governo do PS de se distanciar do outro governo do PS, mesmo sabendo que muitas pessoas pertenceram aos dois."

 

António Barreto, Diário de Notícias, 13 de Maio de 2018

 

A ANÁLISE...

 

Os partidos não são só o que querem ser, que proclamam em declarações de princípios e em programas solenemente aprovados em congressos. Os partidos também são o que deles fazem os campos de possibilidades de cada época - afinal, a política é a arte do possível, e o possível não obedece a princípios nem fica enclausurado em programas. Para um partido ser o que quer ser, precisa de interpretar e avaliar o que muda no campo de possibilidades para poder realizar os ajustamentos necessários de modo a continuar a ser uma entidade política com valor estratégico. E onde houver mais do que um partido, cada um também será o que os outros lhe permitirem que seja, porque todos vão competir para conquistar a atenção e o voto dos eleitores.

 

O PS criou para si próprio a imagem de "partido-charneira", aquele que estabelece o equilíbrio entre os extremos, impede a radicalização de um lado ou de outro, e pode permanecer sempre no poder, ou em vias de para lá voltar, oscilando as suas alianças quando não tiver maioria absoluta. Propôs para si próprio o rótulo de reformista de centro-esquerda, mas não teve em conta que essa posição protegida, no centro de tudo, deixaria de o ser se não acompanhasse a dinâmica do campo de possibilidades. Quando o possível muda, a política também tem de mudar, ou nem sequer política será, porque o poder que conquistar não poderá ser exercido, será apenas uma memória do passado que já nada diz sobre os horizontes do futuro.

 

Esta foi a tragédia do PS (e da social-democracia) depois da queda do Muro de Berlim e do colapso da União Soviética: mudou o possível, mas não quiseram mudar a política. Guterres e Sócrates são as duas faces da mesma moeda da incompetência que corrompe a política, por ingenuidade ou por perversão, e António Costa é a continuação do mesmo erro porque não critica a política de um e de outro. A política do impossível é o naufrágio na dívida e a escravatura tributária, as duas faces da corrupção política.

 

O espelho em que o PS encontrava a sua imagem de reformismo virtuoso e de equilíbrio dos extremos quebrou-se, e o que se vê agora, nos pedaços de espelho que restam, são fragmentos inconsistentes e incongruentes, que não criticam o passado e não podem projectar o futuro.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

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