António José Teixeira
António José Teixeira 18 de maio de 2018 às 13:00

Folha de assentos

Há 50 anos, dizia-se em Paris que a beleza e a política estavam na rua. Era proibido proibir e, com realismo, exigia-se o impossível. Nem tudo foi sonho, o mundo mudou. Muito. E continuará a mudar. Por enquanto, não há praia debaixo da calçada, mas demasiados arremessos às nossas cabeças. O mundo está azedo. Bárbaro.
tiranos. O jogo de futebol é um dos mais belos espectáculos. Para quem goste, obviamente. Há muitos que gostam. Por vezes, demais, exacerbadamente. O futebol tem clubes, adeptos, fiéis entusiasmados e obstinados. O futebol é bonito e é tantas vezes uma festa. Também é um negócio, uma indústria de muitos milhões. Os clubes são empresas, regra geral geradoras de prejuízos, mas alimentam muitos agentes. Regem-se por legislação própria, que muitas vezes desafia direitos, liberdades e garantias. São Estados dentro dos Estados. Pululam à sua volta violência e marginalidade, instigada por tiranos e tiranetes que tiram partido de identidades alienadas e de frustrações recalcadas. Esta semana tivemos demonstrações de barbárie, em que um jogo bonito se tornou pretexto para energúmenos nem sequer pouparem os jogadores do seu próprio clube. Nesta deriva há uma impunidade inadmissível, que põe em causa uma arte e um negócio. Pior, põe em causa a tranquilidade e a segurança de todos os que gostariam de fazer do futebol uma festa. 

choque. A decisão de Donald Trump de romper o acordo nuclear com o Irão criou ondas de choque cujo alcance ainda é difícil de avaliar. O rompimento dos EUA com os seus parceiros europeus (Alemanha, Reino Unido e França) representa um corte sem paralelo desde o pós-Guerra. Estamos a falar de um acordo que demorou 15 anos a negociar, que envolveu também a Rússia, a China, a UE e a ONU e que baixou a tensão na região. O acordo não será perfeito, mas garantiu uma diminuição da ameaça nuclear. Rasgar o acordo significa renovar as sanções, instigar à guerra no Médio Oriente e criar um dano grave à relação transatlântica. Os efeitos já se estão a sentir e não auguram nada de bom. Pouco importou se o acordo estava a ser cumprido para benefício de todas as partes, e estava, como comprovou a Agência de Energia Atómica. Talvez amedronte a Coreia do Norte e a convença a ceder em toda a linha na cimeira de Singapura. Talvez aumente a popularidade interna de Trump e faça esquecer os seus problemas com a justiça, como sempre acontece quando levanta a voz no exterior. Mas os danos acrescentados à desordem internacional são elevados. Os EUA deixaram de ser mediadores, tornaram-se parte do problema. A inauguração da embaixada americana em Jerusalém é a demonstração da tragédia. 

pressão. O primeiro-ministro e o Presidente da República dominam o palco político ora à vez, ora em conjunto. É normal que assim seja. São os dois vértices maiores do poder. Nada de extraordinário. Mas é curioso como as suas entrevistas e as suas mensagens se sucedem num jogo em que se condicionam parceiros e sobra pouco espaço para terceiros. O próximo Orçamento do Estado é um caso exemplar. Primeiro, Marcelo ameaça avançar para eleições se a esquerda ou o PSD não o viabilizarem. De seguida, Costa alerta os seus parceiros de esquerda que o chumbo do OE significa antecipação das eleições. La Palice não diria melhor, mas nem por isso as mensagens deixam de pressionar a "geringonça", que vai dizendo que não assina de cruz. Quem esticar demasiado a corda, arrisca-se… Política pura que exige vigilância permanente e a certeza de que os trabalhos de António Costa não são apenas orçamentais. O fantasma de Sócrates tornou-se o filão da oposição e continuará a pairar, também no congresso da Batalha; os estrangulamentos da saúde estão para durar e os desafios eleitorais aproximam-se. Tempos intensos em que a gestão dos incêndios será determinante para as ambições de António Costa. 

edp. A Oferta Pública de Aquisição que a China Three Gorges lançou sobre a EDP para adquirir a totalidade do seu capital ou, pelo menos a maioria, avivou preocupações que pareciam adormecidas. A pressão da troika para que o Estado português vendesse tudo o que desse dinheiro levou a que perdêssemos o controlo de empresas estratégicas, como a EDP e a REN. Não o perdemos para accionistas quaisquer. Perdemo-lo para o Estado chinês. O investimento da China é estratégico e instrumental. Estratégico porque se instala na UE. Instrumental porque através da EDP pode conquistar posições nos EUA, no Brasil ou em África, onde a eléctrica já está presente. De uma assentada, a China estende ainda mais os seus braços. Este passo de controlo total da EDP depende ainda de muitas autorizações, mas as portas estavam abertas há muito. A coincidência da OPA é curiosa. Acontece quando o Parlamento Europeu decide limites à entrada de investimento chinês e em Portugal se questionam as rendas da energia. Doravante, teremos mais presente que quando olharmos para a EDP é mais a China que teremos pela frente do que António Mexia. 

jornalismo. Jornalismo e democracia precisam de liberdade. Sem ela são uma farsa. Ficou célebre a ideia de Thomas Jefferson, o terceiro presidente dos EUA, que, em 1787, disse: "Se tivesse que escolher entre um governo sem jornais ou jornais sem um governo, escolheria sem hesitar a segunda hipótese". A frase está gasta pela repetição, mas vale a pena lembrá-la por estes dias de incerteza. Vivemos - dizem-nos - no tempo da pós-verdade. Há algumas décadas, a Filosofia queria convencer-nos de que não havia verdade, mas apenas interpretação. Hoje, a verdade parece coisa do passado, o relativismo confunde-se com crença ou convicção. Tudo pode vir à Rede. Tornou-se mais difícil discernir o que é verdadeiro do que é falso. As "fake news" tornaram-se armas de arremesso. Não são apenas falsas, são inventadas para serem verosímeis, para confundirem e manipularem os menos cépticos. Faz falta bom jornalismo, que escrutine os poderes, que seja útil, independente, fiável, plural. Sem ele tolhe-se a liberdade e não há democracia plena que resista. Por isso, saúdo a Fundação Gulbenkian pelas bolsas de investigação jornalística que acaba de instituir. São um contributo para incentivar bom jornalismo e com ele uma democracia mais forte. 

maio. 50 anos depois, recordar o Maio de 68 deixa ainda dúvidas sobre o que foi e o que ficou dele. Que agitou e questionou consciências, que embaraçou os poderes acomodados, que deixou perplexos partidos e sindicatos, tudo isso ficou patente. Mas ainda hoje, passados tantos ensaios, não se pode dizer que houve um propósito claro e deliberado. Havia um mal-estar difuso na universidade, um ar do tempo pouco respirável e uma vontade de contestar. Contestar quase tudo: do Estado à família. Mais liberdade sexual, menos autoritarismo, o protesto instalou-se nas ruas e exigiu tudo: poder à imaginação e ao impossível, proibição da proibição. A jornalista Maria Antónia Palla revisitou Paris um ano depois e publicou uma série de reportagens. Republica esses textos agora num livro que recupera um slogan de 68: "Revolução Meu Amor" (Sibila). Aí refere que se colocaram perguntas essenciais, mesmo que não se lhes tenham dado respostas. Ganhou-se, pelo menos, um sentido de liberdade. Maio de 68 foi "o reencontro das mulheres e dos homens consigo próprios, a renovação do direito à felicidade", diz Maria Antónia Palla. Mesmo que o tal essencial não tenha sido dito. "Porque é preciso ainda inventá-lo", diria Cohn-Bendit. 


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