Luís Marques Mendes
Luís Marques Mendes 12 de agosto de 2018 às 21:25

Marques Mendes: "PM respira propaganda e campanha por todo o lado"

As notas da semana de Marques Mendes nos seus comentários na SIC. O comentador fala sobre o fogo de Monchique, a queda do desemprego, a entrevista de António Costa ao Expresso e o estado do Governo, entre outros temas.

O FOGO DE MONCHIQUE

 

  1.       Há uma diferença essencial e várias semelhanças com os incêndios de 2017.

a)      A diferença (não é pequena) é que não houve vítimas mortais. O Governo deu prioridade, e bem, à defesa das pessoas; e a GNR agiu de forma eficiente na evacuação das aldeias. Tudo correcto. Como diz o PM: uma casa pode ser reparada, a perda de uma vida é um dano irreparável.

b)      Agora, o que não há necessidade é de o Governo embandeirar em arco e reclamar vitória com a inexistência de vítimas mortais. É feio. Fica-lhe mal. É saloiice.

  •          Primeiro, porque salvar vidas é a tarefa normal das autoridades. É uma obrigação. Não é nenhum feito extraordinário. Não é nenhuma façanha do outro mundo. Era o que já devia ter sido feito o ano passado.
  •          Depois, reclamar vitória num incêndio que foi o maior da Europa? Que demorou uma semana a controlar? Que causou dezenas de feridos, milhares de hectares ardidos e dezenas de casas destruídas? Isto é uma ofensa às pessoas. Um exercício de politiquice

 

  1.       Quanto ao mais, foi tudo essencialmente igual aos incêndios de 2017.
  •          A mesma generosidade dos Bombeiros;
  •          A mesma sensação de falta de eficácia no combate ao fogo;
  •          As mesmas acusações de sempre das Associações de Bombeiros Voluntários e Profissionais;
  •          A mesma insensibilidade política e social do PM que acha que um fogo desta envergadura é uma excepção. Foi novamente muito infeliz.
  •          O mesmo contraste do PR que veio dar uma bofetada de luva branca no Governo – ao dizer que não há razões para triunfalismo. O facto de não ter havido vítimas não consola todos aqueles que perderam os seus bens. É o ditado popular: o mal dos outros não resolve os meus problemas.
  •          Em conclusão: estamos a melhorar, mas muito devagar. Ainda há muito a fazer. Não é tempo de celebrar.

 

A QUEDA DO DESEMPREGO

 

  1.       O INE divulgou esta semana a taxa de desemprego do segundo trimestre deste ano – 6,7%.

Há que dizer que é um resultado fabuloso:

  •          Porque é o mais baixo dos últimos 14 anos;
  •          Porque é mais baixo que a previsão que o próprio Governo fazia;
  •          Porque o desemprego jovem também baixou bastante – de 42% para 19%;
  •          Porque o desemprego de longa duração (de pessoas mais velhas) também baixou significativamente);
  •          Porque em algumas regiões (Algarve e centro) estamos com pleno emprego.

 

  1.       Que conclusões a tirar?

a)      Primeiro: que é uma excelente notícia para o país. Mesmo que algum seja trabalho precário, a verdade é que um baixo desemprego é o melhor contributo para uma maior coesão social;

b)      Segundo: que é um grande triunfo eleitoral para o Governo. Embora quem cria emprego sejam as empresas e não o Governo, a verdade é que nenhum governo perde eleições com uma taxa de desemprego tão baixa.

 

A ENTREVISTA DE COSTA

 

  1.       Globalmente, é uma entrevista de campanha eleitoral. Estamos a um ano de eleições, mas António Costa não brinca em serviço. O PM está literalmente em campanha eleitoral. Respira propaganda e campanha por todo o lado. Descontado este detalhe, é uma entrevista consistente. Vê-se que o PM está muito tranquilo, confiante e seguro.

 

 

  1.       A única grande novidade da entrevista é o próximo OE. Ao contrário do que alguns incautos pensavam, vai mesmo ser um orçamento eleitoralista. Um orçamento virado para ajudar o PS a ganhar eleições. O PM confirma-o expressamente:

a)      Mais dinheiro para a cultura – para acalmar um sector que contestou o Governo;

b)      Mais dinheiro para a ciência – para tranquilizar um sector que fez um manifesto contra o Governo;

c)      Um programa para que os jovens que emigraram no tempo da troika regressem a Portugal nos próximos dois anos – para fazer um contraste com o PSD;

d)      Incentivos para investir no Interior – para tirar uma das poucas bandeiras que ainda restam ao PSD;

e)      Várias medidas para a Função Pública – porque este é o núcleo eleitoral central do PS.

 

  1.       Quanto a alianças governativas do futuro, é mais do mesmo. António Costa é "cínico quanto baste" a fazer a quadratura do círculo. Uma palavra para a geringonça e outra palavra para o PSD – para os manter à defesa, na ilusão de que vai fazer entendimentos futuros com eles. Só que, em boa verdade, o que ele quer é maioria absoluta. Não vai pedi-la, mas outros vão pedi-la por ele.

 

O ESTADO DO GOVERNO

 

Há uma semana analisámos aqui o estado do PSD e do BE. Faz sentido hoje analisar o estado do Governo. E, a este respeito, há três questões essenciais a equacionar:

 

  1.       Primeira: por que é que o Governo está em alta nas sondagens, apesar de tantos erros que comete (saúde, educação, comboios, Tancos, SIRESP)? Por duas razões essenciais:
  •          Primeiro: pela economia e pelo emprego. Hoje há mais emprego e mais poder de compra do que havia. A comparação é favorável ao PS e desfavorável ao PSD.
  •          Depois: porque aos olhos das pessoas não há oposição credível. E, quando assim é, não há alternativa. Vota-se no poder.

 

  1.       Segunda: com tantos ministros desgastados (na Educação, na Saúde, na Defesa), será que o Governo precisa de ser remodelado?
  •          Precisar, precisava. Mas passou o tempo para remodelar. Agora, já não estamos em modo de governação. Estamos em modo de campanha eleitoral.
  •          E também não adiantava muito mudar de ministros. Este é um Governo especial, em que verdadeiramente só mandam duas pessoas – o PM e o MF. Todos os outros Ministros são, com todo o respeito, uma espécie de ajudantes. Portanto, mudar de caras não mudaria o essencial.

 

  1.       Terceira: o PS conseguirá chegar à maioria absoluta?
  •          Eu diria que não é impossível, mas é bastante difícil. Em qualquer caso, o PS tem uma vantagem e uma desvantagem.
  •          A vantagem é que os portugueses gostam de estabilidade e querem estabilidade. E os eleitores mais moderados do centro-direita e centro-esquerda "assustam-se" com um Governo do PS com o BE. Preferem um Governo PS sozinho a um Governo do PS com Bloco.
  •          A desvantagem é que a maioria absoluta exige um projecto altamente mobilizador. Ora, o Governo dá uma certa sensação de estar esgotado. De estar em gestão corrente.

 

CRISE NOS COMBOIOS

 

  1.       Já o disse aqui há duas semanas e repito: a responsabilidade do estado a que chegou a ferrovia em Portugal é de vários Governos, oriundos de vários partidos. Ou não fizeram os investimentos que se impunham ou fizeram investimentos errados (apostando tudo na rodovia e desvalorizando a ferrovia).

 

  1.       Só que este Governo já está em funções há três anos e em três anos passaram-se e continuam a passar-se coisas muito estranhas e suspeitas. Vejamos duas, apenas, que o Governo deveria esclarecer:

a)      Primeira: a anterior administração da CP apresentou ao Governo em 2016 um plano para comprar 35 novos comboios (10 de longo curso e 25 para os regionais). Por que é que o Governo não aprovou essa compra? É muito suspeito este comportamento do Governo. E mais suspeito se torna se acrescentarmos que a CP tinha um plano financeiro que praticamente não onerava o Orçamento do Estado.

b)      Segunda: diz-se agora que, finalmente, o Governo vai mandar comprar novos comboios para o serviço regional mas não para o longo curso. Outra suspeita grave. É que o serviço de longo curso é o mais lucrativo para a CP. Então se é o serviço mais lucrativo, por que é que que o Governo o desvaloriza? Será porque está a pensar privatizar esse serviço, como já alguém disse? Ou é porque quer facilitar a vida aos privados que com a liberalização do sector aqui vão entrar a partir de 2019? Tudo isto é muito suspeito e o Governo devia esclarecer.

 

  1.       Finalmente, já não suspeito mas censurável, é o discurso do Secretário de Estado do sector (Oliveira Martins) que esta semana veio dizer que tudo o que se diz da crise dos comboios é uma invenção, insinuando que tudo não passa de politiquice.
  •          Como é que uma pessoa inteligente (e este SE é um homem inteligente) pode dizer uma barbaridade destas, quando a CP suspende comboios, suprime horários, substitui comboios por autocarros, deixa de vender bilhetes e acumula avarias?
  •          Eu sei que este é o padrão habitual do Governo: negar as evidências e copiar o optimismo incorrigível do PM. Mas convinha um pouco mais de verdade e bom senso. Afinal, os portugueses são calmos mas não são parvos!

 

A NOVA ÉPOCA DE FUTEBOL

 

Quatro apontamentos:

 

  1.       Uma curiosidadenormalmente, os favoritos à vitória no Campeonato são os três grandes: Benfica, Porto e Sporting. Este ano, infelizmente, o Sporting já não é favorito ou é menos favorito. O que é pena. Torna o campeonato menos competitivo. Em compensação, há quer ter especial atenção com o Braga. Pode intrometer-se entre os três grandes e fazer um grande campeonato.

 

  1.       Uma boa notícia: o Governo prometeu há três anos uma nova lei contra a violência no desporto e cumpriu. Foi aprovada na passada quinta-feira. Com esta singularidade: criou a Autoridade para o Combate à Violência no Desporto, uma ideia já muito antiga do Presidente da FPF, Fernando Gomes.

 

  1.       Uma má notícia – Claques dos Clubes de Futebol (Sporting e Benfica).
  •          Há 3 meses aconteceram os graves acontecimentos de violência na Academia de Alcochete. Três meses depois, importa perguntar: o Sporting abriu algum inquérito ao que sucedeu? Não. Algum dos prevaricadores foi expulso de sócio do Sporting? Nenhum. Algum dos infractores foi punido do ponto de vista desportivo? Nada. Nem pensar.
  •          E que dizer do Benfica? As suas claques já estão legalizadas? Já alguém, do Benfica ou fora do Benfica, impôs o cumprimento da lei? Nada.
  •          Em conclusão: os dirigentes desportivos continuam sem coragem para controlar as claques. Elas continuam a comportar-se  como guardas pretorianas dos presidentes dos clubes e mandam nos presidentes. São um mundo à parte. Um "estado dentro do Estado".

 

  1.       Finalmente, uma chamada de atenção: com as eleições em 8 de Setembro, o Sporting vai voltar à normalidade, depois da irresponsabilidade de Bruno de Carvalho. Ainda bem.
  •          Mas há um erro que o Sporting vai pagar caro no futuro. Se queriam acabar mesmo com Bruno de Carvalho, deviam deixá-lo ir a votos e derrotá-lo nas urnas. Os populistas não se derrotam na secretaria. Os populistas ou se derrotam nas urnas ou não se derrotam na totalidade. Fica sempre a sua sombra. O próximo presidente do Sporting, se as coisas correrem mal no futuro, vai pagar esta factura.
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