António Moita
António Moita 21 de outubro de 2018 às 18:50

O último apaga a luz 

A entrada no Governo de João Galamba foi o facto mais surpreendente da recente remodelação governamental. Não se trata, porém, de uma simples troca de protagonistas numa pasta importante e difícil. É uma manobra política de mais largo alcance.

Em Portugal, é eleitoralmente rentável combater, ou fazer parecer que se combatem, os grandes interesses instalados. Depois de décadas de acumulação de privilégios, há empresas que vivem confortavelmente à custa do espartilho que legalmente puseram aos consumidores. O setor da energia é seguramente um daqueles em que a situação do quadro tarifário ou das compensações de Estado (as chamadas rendas) são menos transparentes e mais difíceis de aceitar. Particulares e empresas pagam todos os dias uma das faturas energéticas mais pesadas da Europa.

 

Este tem sido um combate dos partidos da oposição sendo que quem já fez parte integrante de diferentes governos tem pouca legitimidade para protestar. É assim especialmente relevante a voz do Bloco, que tem feito desta matéria uma importante bandeira política.

 

A gestão da EDP está a ultrapassar um período conturbado, sujeita que está a uma OPA chinesa. É um momento de fragilidade que o Governo parece querer aproveitar para fazer valer as suas ideias. Nem que isso signifique prejudicar uma empresa que desperta forte interesse no mercado internacional.

 

A hora de atacar a EDP chegou. Mas o PS quer fazê-lo com estrondo. Só assim renderá os votos que tanto jeito irão dar em outubro de 2019. Mas esta bandeira teria de ser assumida por alguém que, tanta é a ambição, estivesse disponível para um combate que se adivinha muito duro. Quem melhor do que o "jovem turco" João Galamba. Se tiver êxito, ganham os socialistas. Se tal não acontecer, a culpa ficará com ele.

 

Certo é que o protagonismo deixará de estar com Catarina Martins. Uma a uma vão caindo as bandeiras do parceiro da geringonça e, como sempre aqui escrevi, vai ficando cada vez mais claro que esta aliança foi uma inteligente manobra tática que terminará quando deixar de interessar ao primeiro-ministro. Com a cabeça nas próximas eleições, António Costa terá pensado: se tenho um Galamba dentro de casa para que é que preciso de ir contratar o Bloco?

 

João Galamba vem com a missão de apagar a luz. A da EDP, a do Bloco e, se falhar, a dele próprio.

 

Jurista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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