Edson Athayde
Edson Athayde 29 de janeiro de 2019 às 21:50

A verdade da mentira

Tenho a certeza de que não sou dono da verdade. E uma das vacinas que tomo para me manter lúcido é justamente estudar a mentira. Assistir a "Fyre" foi uma bela dose de remédio.

Um advogado, um mágico e um publicitário entram num bar... Este poderia ser um bom começo para uma anedota que servisse para explicar o poder da narrativa.

 

O advogado representa o quanto uma boa retórica pode esclarecer ou enganar. O mágico serve para deixar claro que, desde que bem iludidos, acreditamos em coisas que sabemos não serem possíveis. O publicitário está aqui para o "punchline", para uma qualquer moral da história em que fica claro o quanto de engano pode ter a arte de persuadir.

 

Cruzei-me com duas histórias na semana passada que podem ser usadas com a mesma intenção didática da tal anedota.

 

A primeira é um artigo do site Hypescience que fala de um pseudoestudo a provar que não há qualquer problema em saltarmos de aviões sem paraquedas.

 

Diz o artigo que os testes foram conduzidos pela Universidade de Harvard e do Michigan, envolvendo 23 paraquedistas. Metade saltou com paraquedas de um avião. A outra metade sem. O resultado: não houve diferença na taxa de sobrevivência entre os dois grupos.

 

Acrescentaram, porém, uma pequena nota de rodapé, quase impercetível: como não encontraram voluntários para saltar de aviões em pleno voo, os testes foram feitos a partir de uma nave estacionada no aeroporto.

 

O objetivo dos autores do estudo, na verdade, era mostrar como as pessoas são precipitadas na interpretação de... estudos. Que a ciência não pode ser feita de maneira superficial, que conclusões disparatadas podem ser tiradas a partir de dados corretos, porém, corrompidos.

 

A outra história é a que aparece no recém-lançado documentário "Fyre", disponível na plataforma Netflix.

 

O filme narra a surrealista aventura de um festival de música e luxo nas Bahamas, em 2017, que não passava de um tremendo engodo.

 

A peripécia é contada pelos próprios empregados das empresas promotoras do evento. Vemos publicitários, realizadores, produtores, top models, designers a fazer o mea culpa por terem sido instrumentais numa das maiores fraudes de todos os tempos.

 

Há um pormenor que salta à vista no documentário: tudo foi planeado para tocar fundo nos anseios e desejos dos "millennials". O líder do esquema (ele mesmo um "millennial") é ao mesmo tempo um génio, por saber ler tão bem toda uma geração e falar exatamente o que ela quer ouvir, e também um louco, por já não perceber a linha que separa a realidade e a ilusão.

 

"Fyre" fala também sobre o poder não controlado dos influenciadores digitais, sobre a ditadura das chamadas "experiências", uma forma torta de se destacar na multidão, um atalho que os jovens adultos usam e abusam a ponto de se desconectarem da realidade.

 

Tenho a certeza de que não sou dono da verdade. E uma das vacinas que tomo para me manter lúcido é justamente estudar a mentira. Assistir a "Fyre" foi uma bela dose de remédio.

 

Ou como diria o meu Tio Olavo: "Há quem minta com mais facilidade do que respira."

 

Publicitário e Storyteller

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