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Joaquim Aguiar 07 de Abril de 2020 às 18:59

Economistas para quê?

Não há estímulos que funcionem se não se sabe quando a oferta retoma, e não há orçamento que se controle quando não se sabe o que irá ser o custo da epidemia, como não há legislação de lay-off que possa ter utilidade num choque de oferta e de procura com esta intensidade.

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A FRASE...

 

"Os economistas emudecem porque as teorias se tornaram irrelevantes." 

 

Manuela Ferreira Leite, Expresso, 4 de Abril de 2020

 

A ANÁLISE...

 

Uma crise sanitária não é uma crise económica, mas as suas consequências e o que tem de ser feito para a neutralizar desencadeiam uma crise económica de grande intensidade. Se os economistas pouco têm a dizer sobre a crise sanitária, para além do que deve ser o financiamento de um sistema de saúde e de centros de investigação biomédicos, vão ter muito que dizer sobre o que fazer com a crise económica que a crise sanitária provoca.

 

Esta crise sanitária incide sobre sistemas económicos que já estavam a operar longe do equilíbrio e numa configuração geopolítica muito instável. Mas esta crise económica da crise sanitária não é a evolução natural dos desequilíbrios que estavam latentes nos diversos sistemas económicos, e muito menos pode ser vista como uma réplica da crise de 2008.

 

É uma crise nova, que não tem precedente e que nem sequer foi anunciada. É um choque súbito no lado da oferta, mas que gera um choque ainda maior no lado da procura agregada e que será tanto mais elevado quanto mais densa for a rede de relações intersectoriais porque todos os fluxos económicos (de compras e vendas, de rendimentos e de cumprimento de contratos) são subitamente interrompidos e sem se poder ensaiar uma previsão sobre quando podem ser reactivados. Os instrumentos de política económica tradicionais perdem eficácia: não há estímulos que funcionem se não se sabe quando a oferta retoma, e não há orçamento que se controle quando não se sabe o que irá ser o custo da epidemia, como não há legislação de lay-off que possa ter utilidade num choque de oferta e de procura com esta intensidade.

 

Mas há uma coisa que os economistas sabem e não podem ficar mudos: para que uma economia que congelou a oferta não rebente as canalizações pelas quais se processam as relações intersectoriais é preciso injectar o equivalente a ar ou água quentes. É isso que está ao alcance de um banco emissor, que pode registar no seu balanço toda a dívida que quiser emitir porque tem todo o futuro que quiser para a amortizar, desde que a moeda que emite continue a existir. A emissão de dívida no banco do euro é a condição para que capital e trabalho não fiquem congelados quando a oferta fica congelada pelo vírus. É o euro que responde ao vírus - e o vírus será o fundador da nova Europa Unida, porque revelou a impotência do nacional-populismo. 

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico 

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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