André Ilharco
André Ilharco 27 de setembro de 2019 às 20:19

2084

Assusta-me o aparentemente vazio ideológico com que Greta se endereça aos líderes de Estado na ONU. Claro, não vamos ser ingénuos a ponto de acreditar que não há um forte apoio institucional e corporativo a esta pequena menina.

O problema de discutir assuntos de ecologia, de refugiados ou outros temas futuros é que são sempre derivados do conjunto que é a realidade. Tendem a basear-se em visões políticas, proféticas da realidade. São muitas vezes visões de fé motivadas por cenários não concretizados, futuros.

 

Isto não é aversão à ideia de ecologia ou dos temas de futuro, mas é reconhecer a potencial falta de higiene ideológica que uma construção mental desse tal futuro poderá assumir no âmbito da discussão presente. A verdade é que, hoje em dia, ao contrário do que algumas vozes quererão dizer, o presente não remonta a "1984", de Orwell. Não é só o passado que controla o presente, mas também o futuro e o que fazemos dele hoje. Talvez o presente aponte mais a 2084, uma sociedade na qual quem controla o "futuro" controla o presente. A fórmula orwelliana, afinal, parece alterar-se: quem controla o futuro controla o presente. E quem controla o presente, já sabemos, controla o passado.

 

O aviso é sério: o pensamento político incorpora, em certa medida, uma noção de ser humano e de relações morais. Estas noções estão agrupadas por ideologias, mas não só. Ao contrário da Turquia ou das Filipinas, uma democracia liberal não se faz apenas com assembleias, partidos ou eleições. Instituições fundamentais, mediadores do Estado e da sociedade civil, como a liberdade religiosa e de consciência, requerem o seu exercício para valorizar as suas estruturas fundamentais. Promover debates que se desliguem dos frutos destas liberdades é ignorar a força de uma democracia liberal. A par da saúde ou da educação, campos em que os diferentes valores políticos, como a justiça, se pronunciam de diferentes formas, resultado direto do exercício destas liberdades, porque é que a justiça ambiental escapará a esta dimensão plural e é enviesada monoliticamente em prol de uma justiça "técnica"?

 

Por este motivo, assusta-me o aparentemente vazio ideológico com que Greta se endereça aos líderes de Estado na ONU. Claro, não vamos ser ingénuos a ponto de acreditar que não há um forte apoio institucional e corporativo a esta pequena menina. Temos, claro, de validar as críticas técnicas lidas por Greta. E, sim, não vai ser o "over-acting" da sueca que vai retirar pertinência ao assunto. Mas este discurso persecutório, demasiado emocional, simples e negligente face à duração que a aplicação concreta de princípios tem de ter em política, tem claramente o objetivo de incendiar a visão que temos do futuro, alimentando a raiva e a ira do presente, fazendo-nos acreditar que o sucesso deste futuro passa meramente por questões administrativas ambientais, por questões de capricho e preguiça dos nossos líderes. Greta falou, ainda, de "uma ciência cristalina" e criticou "contos de fadas sobre crescimento económico". Os "mesmos contos de fadas" que permitirão aplicar essa "ciência cristalina", que permitem que exista a escola a que ela deveria voltar e que são fundamentais para o cultivo de outros campos da vida humana, como a educação. Estes "contos de fadas" são, afinal, tudo menos contos de fadas. É uma dissimulação no discurso. Ameaçar através de mudanças "quer queiramos ou não" ou dizer que "não haverá perdão" revisita que tipo de discursos? E não são endereçados somente à classe política mundial. Parte desta classe política, pelo menos grande parte da ocidental, é representativa e, portanto, essas ameaças dirigem-se à população mundial. Como te atreves, Greta?

 

Esta raiva simplista preocupa-me. Como se não existissem, como houve com a Revolução Industrial e o desenvolvimento do capitalismo industrial, questões morais e políticas por responder acerca da transformação social que o ecologismo e o digital propõem. E, aliás, como se não fosse este o verdadeiro equilíbrio a ser discutido para o nosso futuro, o equilíbrio moral de uma sociedade sustentável. Quais as relações no acesso aos recursos a nível comunitário e internacional? Qual a herança do capitalismo industrial numa sociedade sustentável e digital? Quais as suas implicações para o próprio sistema económico-financeiro global?

 

Poderá soar mal, mas acredito que a nossa existência tem de ser garantida primeiramente num plano moral, de suportabilidade moral, antes do que no plano da sustentabilidade ambiental. Parte, claro está, da suportabilidade moral das nossas futuras sociedades passa exactamente pela sua sustentabilidade. Mas esta não será, decerto, alimentada por visões incendiárias e pseudojusticeiras de uma criança sueca de 16 anos que se queixou que perdeu a infância.

 

O futuro dá asas a profecias e no plano das ideologias políticas, sabemo-lo desde Karl Popper, esta agenda de fazer o debate "futuro" tenderá a promover os discursos proféticos, impossíveis, enclausurantes e "pós-democráticos" (um eufemismo pomposo para um autoritarismo). Estas utopias acabam, também sabemos, em violência. Este "futuro" é um tópico do presente e acontece no âmbito de um universo social e moral herdado, competente e útil ao nosso entendimento. Desligar este "futuro" deste universo, das nossas noções de humanidade e de relacionamento social, pode "dar jeito" a agendas que, desde sempre, se opuseram à ordem das coisas, mas não à estabilidade da ordem política do Homem (e não será isso, afinal, o nosso futuro?). O futuro não é impossível de ser discutido, é, aliás, necessário em política. Mas é também vital não ignorarmos o potencial que tem para ser convenientemente moldado. Haverá melhor forma de ganhar no campo ideológico do que definindo os limites do próprio campo, os seus instrumentos e actores?

 

O futuro, em política, é sempre ideologicamente pensado. Agora, não façamos disto uma questão de meros factos, porque a imagem que temos do futuro é feito das mesmas coisas que constroem as ideologias políticas: noções de indivíduo, de valores e de dinâmicas sociais. Não há, portanto, mal nenhum em discutir futuros baseados em visões ideológicas, na estrita medida em que se reconheça o valor da sua discussão e da sua imperfeição conceptual. Fingir que só um futuro garante a nossa existência revela ser, no fim de contas, uma estranha e velha forma de autoritarismo mascarado de ciência.

 

Estes tipos de grilhetas, como o tornar administrativos os problemas políticos, a maniqueízação do discurso moral ou o estabelecimento do debate político em planos futuros, carentes de discussão ideológica e desligados de valores, que devagar e invisivelmente limitam a actual discussão, podem assemelhar-se ao controlo de uma novilíngua orwelliana. O discurso de Greta, por mais legítimo que seja, apenas alimenta a vontade de um cego caminhar para um abismo, sem saber nada sobre a forma como o vai ultrapassar.

 

Setenta anos depois de "1984", o passado bate-nos à porta sob a forma de um admirável 2084. 

 

Analista político

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