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[517.] Cartazes da pré-campanha do meu concelho: Oeiras

Tal como nos cartazes de Vistas deverá desaparecer Isaltino, é fácil prever que nos do PSD, depois das caras anónimas, surgirá a de Moita Flores, fazendo dele o representante delas, símbolo do conjunto. Só no final será necessário acrescentar o logótipo do PSD.

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Muito se fala da desfaçatez de políticos brasileiros corruptos e ladrões, mas Portugal deverá ser a primeira democracia no mundo a ter como cabeça de cartaz em campanha eleitoral um político preso por branqueamento de capitais e fraude fiscal.

O seu herdeiro político — assim se considera ele, não é ironia minha — chama-se Paulo Vistas e é o candidato a presidente da Câmara de Oeiras pelo movimento "Isaltino - Oeiras Mais à Frente". Nos cartazes, Vistas está apenas um pouco à frente do presidiário Isaltino de Morais — talvez uns 30 centímetros, mas vêmo-los lado a lado. Os cartazes são literalmente Vistas de Isaltino. No nome da campanha e nos cartazes, Vistas e Isaltino são duas faces da mesma moeda, irmãos da mesma família.

É uma opção política. Vistas conta com a crença bastante enraizada entre munícipes do meu concelho de que "ao menos, o Isaltino fazia coisas", "era um bom presidente". Valia a pena fazer uma sondagem para se tentar perceber se os portugueses condenam a corrupção dos que vêem como fortes e longínquos — os governos, as grandes empresas — e desculpam a corrupção dos que lhes estão próximos. Com esta duplicidade, são afinal cúmplices da corrupção, que condenam como valor moral distante e aceitam como prática próxima e quotidiana. De outro modo, não seria possível a Paulo Vistas a desfaçatez de pegar o boi de caras e apresentar-se como o continuador de um autarca preso por branqueamento de capitais e fraude. É um facto muito significativo da cultura política dos portugueses e do próprio regime e sua evolução. Há 40 anos tínhamos cartazes pela libertação de um preso político, hoje temos cartazes com um político preso.

A campanha do candidato independente Francisco Moita Flores é uma das que o secretário-geral do PS criticou por esconderem o símbolo do PSD. Na verdade, os cartazes indicam o slogan de campanha ("Uma nova ambição"), identificam a campanha com a frase "Oeiras 2013 Moita Flores", preferem o vermelho (do PS) ao cor-de-laranja do PSD e omitem a cara do candidato. Em vez dele, cidadãos anónimos sorriem ao lado de frases enigmáticas. Primeiro, diziam apenas "A nova Catarina", "O novo Tio Carlos". Na segunda vaga, as mesmas personagens revelam as suas "ambições": a "Catarina" opta por "Apostar mais nos miolos e menos nos tijolos", enquanto o "Pedro" quer "Mais vida nos centros históricos".

O desgaste governativo do PSD a nível nacional levou à omissão dos símbolos do partido nos cartazes, para permitir à candidatura apresentar-se pelas suas propostas concretas para a pequena governação, a do município. Tal como nos cartazes de Vistas deverá desaparecer Isaltino, é fácil prever que nos do PSD, depois das caras anónimas, surgirá a de Moita Flores, fazendo dele o representante delas, símbolo do conjunto. Só no final será necessário acrescentar o logótipo do PSD, como se este fosse apenas o meio necessário para a eleição do candidato.

A personalização da política autárquica na cabeça de lista ocorre também na campanha do PS. Com lógica, os cartazes do PS usam como fundo, e na gravata do candidato, o encarnado associado ao partido, mas isso acaba por diminuir o peso político da campanha no conjunto da refrega eleitoral: ao usar o encarnado, a campanha de Moita Flores pretende tornar irrelevante a do PS, chamando a si os munícipes independentes que normalmente votariam PS, para que a luta se concentre entre o PSD e a dupla maravilha Isaltino-Vistas. Os slogans do PS também não ajudam, pela sua espantosa falta de imaginação: "Oeiras é a minha casa" (não fica claro visar Moita Flores, que não é oeirense) e "Unir Oeiras!" (unir a quê e porquê?). Ao contrário das outras duas, esta campanha apresenta-se com um ar perdedor à partida, em consequência de uma má comunicação publicitária.

eduardocintratorres@gmail.com

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