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[519.] Caixa Geral de Depósitos - Dar a volta

A metáfora visual deste anúncio consegue, como tanta publicidade, a magia de manter a metáfora activa enquanto a "destrói" enquanto metáfora, pois o que é mentalmente vivido como uma alternativa abstracta ao real — neste caso inverter a situação — transforma-se no próprio real

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O novo anúncio televisivo da Caixa Geral de Depósitos baseia-se na expressão popular "dar a volta" para exprimir a capacidade de se inverter uma situação que está mal. Na versão do filme com 1:41, foram criadas quatro situações em que os cidadãos comuns "dão a volta" ao mundo em que vivem, que está invertido: o chão está no tecto e o tecto está no chão. Só as pessoas estão visualmente na posição certa, ou melhor, a do espectador. 


Depois da perplexidade inicial os protagonistas tomam o assunto em mãos e empurram as paredes com as mãos até o seu mundo deixar de estar ao contrário. São eles uma criança, um casal que depois se lhe reúne, jogadores de futebol devidamente equipados em verde-rubro, e empregados de uma empresa num open space. Noutra versão, aparece uma fábrica automóvel. Em resumo, particulares e empresas.

Quando os actores vêem o mundo ao contrário, as imagens são acompanhadas por um slogan musical tocado ao piano; quando deitam mãos à obra o mesmo refrão musical é tocado por uma orquestra ao estilo de filme de acção — e é de acção que se trata. Se, com a crise, o mundo está ao contrário, é preciso dar-lhe a volta. Muitas metáforas verbais, como a expressão "dar a volta", contêm em si mesmas a ideia de acção. São por isso extremamente apetecíveis para a publicidade visual, que não só beneficia do movimento implícito nas palavras da metáfora, como o mostra, literalmente, já não na linguagem semiabstracta das palavras, mas através de referentes do mundo real: casas, pessoas, automóveis, etc.

A metáfora visual deste anúncio consegue, como tanta publicidade, a magia de manter a metáfora activa enquanto a "destrói" enquanto metáfora, pois o que é mentalmente vivido como uma alternativa abstracta ao real — neste caso inverter a situação — transforma-se no próprio real, quando as mãos empurram casa, escritório, balneário ou fábrica para repor a ordem no mundo.

Bem produzido e realizado, este filme publicitário de aventuras adequa-se aos tempos que vivemos: parece que não há saídas para a crise de cada um ou de cada empresa, mas elas existem.


A feliz solução do argumento é colocar a inversão do mundo nas mãos das próprias pessoas, aparecendo a Caixa, não como o agente principal, mas como o suporte da mudança que cabe aos seus clientes accionar, o que é um elemento realista de saudar.

Há no anúncio uma segunda e uma terceira metáforas visuais, que não são verbalizadas, pelo que se notam menos ou passam despercebidas. Mas estão lá, e são assimiladas pelos espectadores: "Deitar mãos à obra" e "com as próprias mãos". Elas exprimem-se no esforço individual ou colectivo dos próprios que estão em dificuldade em empurrar paredes até o mundo deixar de estar ao contrário.

O vídeo exprime a ideologia de que o mundo esteve bem, ficou mal e agora pode voltar a ficar bem com a soma das acções individuais, tornando-se colectiva (daí as várias actividades representadas, bem como as cores da bandeira nacional no equipamento dos desportistas).


O optimismo do anúncio — característica indispensável à publicidade — tem aqui uma concretização eficaz, tal é a força da metáfora verbal "dar a volta", usada em palavras e em visualização ficcional, conseguindo transmitir a ideia-base de que tu/você/nós "somos capazes" de sair da crise não pela inacção, mostradas nos primeiros planos, mas pela força de vontade, aqui igualmente mostrada pela força física dos que empurram as paredes.

Pode não ser bem verdade, mas também sabemos que a propaganda pode ser capaz de mudar ideias e desencadear acções. Este anúncio tem a qualidade necessária para motivar o espectador e conseguir o objectivo.

 


eduardocintratorres@gmail.com  

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