Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião

[572.] Mercedes-Benz

O anúncio televisivo do modelo CLA 180 CDI da Mercedes-Benz é muito atractivo para os olhos. O carro corre velozmente a direito pelo asfalto e vai destruindo um a um ecrãs gigantes que mostram modelos anteriores da Mercedes. Atravessa-os sem dó nem piedade, a grande velocidade. Despedaça os ecrãs.

  • Partilhar artigo
  • 2
  • ...

 

Tudo é digital, mas a qualidade técnica é tanta que a sequência transmite veracidade aos olhos do espectador. Já se viram outros anúncios em que se deita fora um produto velho para consumir um novo. Aqui, porém, estamos perante um automóvel, produto de grandes dimensões, e um produto associado ao luxo. A ficção do deitar fora o velho teria de ser construída a preceito e com grande estilo. Assim, os modelos velhos ou anteriores são representados como fotografias em ecrãs, tornam-se virtuais, não são eles que o veloz CLA 180 destrói, mas as suas imagens. E a destruição, em grande estilo, não ofende, antes entusiasma.

 

A intenção é simples: o novo modelo da Mercedes é superior a tudo o que a própria marca fez antes; você, dono de um Mercedes, varra o seu carro da memória, porque chegou a altura do novo; só um Mercedes supera um Mercedes anterior. Só um Mercedes pode destruir, virtualmente, isto é, substituir os Mercedes anteriores.


O anúncio é, ao mesmo tempo, iconoclasta e iconolatra: destrói imagens, adora imagens. Não mostra a destruição de carros, antes destrói as imagens de carros para que o observador adore a nova imagem do automóvel propriamente dito, e adore as próprias imagens do anúncio.

 

O texto lido em voz off complementa a visão. Diz, enquanto o carro vai destruindo os respectivos ecrãs, que desde sempre a marca vingou na excelência em design, segurança, tecnologia, etc. Mas o texto pouco interessa num anúncio com este poder visual, serve mais para "fazer companhia" ao hábito da publicidade de ter imagem e voz. Mais importante que o texto é o início da música, assemelhada à do genérico de "Guerra dos Tronos", para sugerir o drama vitorioso que se vai seguir, quando o carro arrancar para a destruição de ecrãs. A cena decorre com pouca luz do dia, para realçar os ecrãs na estrada. O carro só termina a sua guerra vitoriosa no trono do presente, ao romper um ecrã pelas traseiras, o qual fica intacto com o nome do modelo e o preço.

  

As campanhas da Mercedes-Benz começaram há tempos a incluir o preço, o que implica uma alteração do posicionamento no mercado: os preços, que se sugere como convidativos, são um bónus – não sobrevalorizado como tal nos anúncios – para uma marca que pretende ainda e sempre inculcar a ideia de alta qualidade e sofisticação no design, na segurança, na tecnologia, etc. Um anúncio americano do ano passado criava um ficção num restaurante em que o actor Willem Dafoe, encarnando o diabo, tenta convencer um homem jovem a assinar um contrato, enquanto este via homens a colar um anúncio – num anúncio, que mais poderia ser? – num "outdoor" publicitário da Mercedes. O jovem está tentado a assinar o contrato com a caneta dourada que o diabo (o futuro patrão?) lhe estende, até ao momento em que finalmente os homens colam a última parte do anúncio do carro da Mercedes em que se indica o preço: sendo àquele preço, o jovem recusa assinar contrato com o diabo, que, furioso, se dissipa.

  

No novo anúncio de televisão do modelo CLA 180 CDI – em que os ecrãs também se assemelham a "outdoors", neste caso electrónicos – o desenlace é igualmente o preço do modelo. E, todavia, a publicidade faz crer que é um pormenor, depois do espectáculo visual em torno do design, da segurança, da tecnologia, etc. O preço, apesar de bem visível como "happy end" da narrativa, é como que um segredo feliz para quem julgar não ter cabedal para comprar um Mercedes.

 

eduardocintratorres@gmail.com

Ver comentários
Mais artigos do Autor
Ver mais
Outras Notícias