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[663.] Continente: "Fome de vencer"

Deve ser a primeira campanha que recorre às derrotas da Selecção Nacional para promover o anunciante. Vê-se uma imagem de um Alemanha 4 - Portugal 0, vê-se imagens de jogadores desalentados, incluindo Cristiano Ronaldo.

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O anúncio da cadeia de hipermercados Continente na qualidade de patrocinadora oficial da Selecção Nacional de Futebol leva a metáfora da "fome" à estratosfera - e não, não estou também eu a usar uma metáfora: andar a Selecção perdendo há tantos anos faz-nos perder a cabeça, rebentar, explodir e ir para os espaço sideral em fúria com a "fome de vencer". Tudo isso se vê no anúncio de um minuto em mais de 60 planos a uma velocidade alucinante e em vários estilos e modos, incluindo a animação, cores e preto e branco, imagens reais e virtuais.

 

Deve ser a primeira campanha que recorre às derrotas da Selecção Nacional para promover o anunciante. Vê-se uma imagem de um Alemanha 4 - Portugal 0, vê-se imagens de jogadores desalentados, incluindo Cristiano Ronaldo. Os planos dessas imagens factuais foram misturados com imagens ficcionais de adeptos furiosos e até violentos, atirando a mesa ao chão, lançados no ar por algum golo do adversário que faz explodir o ecrã de TV, rugindo de fúria. Há até tempo para uma cena de sexo à chuva em cima dum automóvel, talvez porque a Selecção motivava o desinteresse dos adeptos pelo jogo, havendo por isso coisas mais interessantes para fazer. Pelo caminho, há um plano magnífico duma multidão frente a uma espécie de ecrã gigante.

 

A ficção não poderia ficar por aí. Aos 30 segundos, a narrativa muda para cenas factuais de golos portugueses, jogadores celebrando, empurrados por planos ficcionais em montagem paralela de adeptos (e um lobo, tipo "Guerra dos Tronos") renascendo da fúria negativa para uma fúria positiva, visceral, que vem do fundo do tempo, como a dos pré-históricos que também aparecem. São eles, os adeptos, ou consumidores, que, mudando de atitude, permitem simular a vitória no Euro.

 

O texto do anúncio lido em voz-off acompanha esta narrativa. Espero tê-lo transcrito bem, pois, como de costume, não se percebem todas as frases à primeira, quer pela má dicção do narrador, quer pelo volume da música, que se lhe sobrepõe. Diz o texto:

 

"Estamos com fome. Uma fome que vem do fundo. De longe. De trás. Do mundo. É uma fome incontrolável. Uma fome incomparável. Uma fome que não se sacia. Que até a alma esvazia. Saiam da frente! Ouvem-nos rosnar? Sabem com quem estão a lidar? Temos mais olhos do que barriga! E esta fome já é antiga. Estamos com fome de vencer. E esta fome não se mata. Alimenta-se! Continente: patrocinador oficial da fome de vencer."

 

As frases são curtas, como os planos do vídeo. A função poética é concretizada no ritmo e em quatro rimas (incontrolável/incomparável, sacia/esvazia, rosnar/lidar e barriga/antiga) e uma repetição (vencer/vencer).

 

A mensagem do texto constrói-se deste modo: a Selecção Nacional nunca ganhou, andamos nisto há décadas; nós, os adeptos, temos desejo de ganhar; nós, os adeptos (e os jogadores), somos melhores e os "outros" não sabem ("Sabem com quem estão a lidar?"); temos vontade de ganhar. O anúncio não diz que a Selecção vencerá. É apenas o desejo expresso hiperbolicamente, culminando numa das duas palavras principais do texto: "vencer".

 

A outra palavra principal é "fome", repetida nove vezes. A fome é o sujeito de oito frases.

 

O anúncio está todo construído a partir dessa metáfora: fome antiga que não se sacia, etc. A metáfora permite uma reviravolta poética original: esta fome não é para matar, mas para alimentar, quer dizer, para manter, dado que a fome é a metáfora do desejo de vencer e esse deve manter-se até ao fim.

 

A metáfora foi escolhida porque serve a ficção, o sonho, os desejos dos observadores, ao mesmo tempo que a fome, no sentido literal da palavra, empurra para as prateleiras do hipermercado. Quem tem fome alimenta-se, é o que diz o texto, e estamos aqui no assunto mais sério do anúncio: quem tem fome vai ao Continente e compra, gasta, consome, para alimentar a fome sem nunca a matar, porque a fome, diz o anúncio, nunca se mata. É preciso continuar a consumir. 

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