Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 22 de março de 2017 às 20:45

[702.] Planta

Houve mulheres que rejubilaram com o anúncio de Planta: umas porque gostaram do que viram, outras, porque finalmente não era apenas a mulher a fazer de "objecto". Será que é assim? Vamos a factos.

A fotografia do anúncio em publicidade de rua mostra um homem musculado de tronco nu em plano médio, o que lhe dá grande destaque. Quase não se vê, propositadamente, as calças de pijama, para sugerir ao primeiro olhar que está nu. Está numa posição frontal, simétrica e olhando para a câmara, o que significa que a foto cria uma relação directa com o(a) observador(a). Essa relação pode ser ou de oferta ou de ordem. Neste caso, pelo contexto, é de oferta (está nu), mas também de ordem, porque comanda o observador com o olhar e as mãos estão firmemente assentes na mesa da cozinha, numa comunicação não-verbal que sugere poder. A posição frontal e simétrica acrescenta essa sugestão: o homem enfrenta sem qualquer receio, constrangimento ou vergonha quem o observa. Estamos, portanto, conversados, quanto ao "homem-objecto": é objecto (como qualquer pessoa numa fotografia se transforma num objecto), mas não só está a oferecer-se, como a solicitar, em posição de superioridade, uma relação com o(a) observador(a).

 

Um detalhe que tem escapado a quem escreve sobre este anúncio provocante, ou provocador, é o da embalagem de Planta. Primeiro, a embalagem é gigante, quer dizer, não corresponde, na relação de tamanho com o homem, à dimensão real do produto que se encontra nos supermercados; segundo, a embalagem foi colocada estrategicamente em frente das calças do pijama, isto é, tapa (permitindo a primeira impressão de nudez total) e, muito mais do que isso, associa Planta ao órgão sexual do homem - Planta está no lugar dele, Planta faz de órgão sexual - e de que tamanho!

 

Resta referir a mensagem verbal: "Origem vegetal. Sabor irresistível." As duas frases estão sobrepostas no homem. Quer dizer, estão coladas ao homem, são como que um descritor dele. O homem parece apresentado como de "origem vegetal". Para um animal musculado como o da foto, a ironia tem a sua graça. A associação sugerida é a seguinte: com Planta, que é de origem vegetal, "ele" fica assim: o vegetal faz-se animal, da toca (o corpo) sai o "verdadeiro" animal. Portanto, quer Planta quer o homem são de um "sabor irresistível". Em resumo, é um anúncio que cumpre o objectivo: chamar a atenção à primeira vista (qualquer corpo nu o consegue); fazê-lo no espaço público, onde o observador sabe que há uma partilha social do consumo, o que perturba e eventualmente excita e motiva conversa; sugerir, sem o dizer, que o produto faz do homem um animal musculado e "irresistível". E, a partir daí, pôr a observadora a comprar Planta para levar até ao fim o sonho de ter ou ver o seu homem igual ao da foto. A imagem concretiza a simbiose de Planta com o homem, ou seja: é um "pão" com manteiga… vegetal! Planta é o sexo: tipo manteiga de "O Último Tango em Paris" - mas vegetal.

 

O anúncio de TV é igualmente sugestivo na associação de Planta à sexualidade. Ao som de uma música em francês (para incutir sensualidade), a narrativa mostra o homem a preparar torradas com Planta. A fita das calças do pijama está desapertada, convenientemente. Ele leva um tabuleiro de pequeno-almoço e entra no quarto, mas ela não está na cama. Aparece-lhe por trás e tapa-lhe os olhos com uma venda negra, numa sugestão de sexo a vir. Ele sorri e deixa-se acariciar por ela. Ela desce as mãos do peito dela em direcção "a sul" e quando chega, por alturas do umbigo, em vez de descer até ao sexo, passa para o tabuleiro e tira uma torrada com Planta. Recordo que, no outro anúncio, Planta é o sexo dele. A seguir é ele que está por trás dela a acariciá-la. Corta para um vídeo de trás para a frente: primeiro uma faca a repor Planta na embalagem; a seguir, vê-se um líquido libidinoso a escorrer para dentro de um recipiente em forma de boca, que o "engole" (o vídeo está invertido por alguma razão). Já junto da cama, ele, ainda com os olhos vendados, tenta dar-lhe um beijo, mas ela primeiro afasta-se a rir (prefere a torrada) e depois reaproxima-se (ele é o outro "pão" com manteiga vegetal). No fim, um plano desfocado da bandeja junto da embalagem do produto - eles já devem ter voltado para a cama - e um slogan: "Planta. O poder das plantas." Sim, o poder sexual do vegetal carnal. E porquê plantas, no plural? Que plantas serão? Os girassóis que se viram fugazmente? Os tomates? As cenouras? É melhor ficar por aqui. 

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