Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 03 de maio de 2017 às 20:54

[708.] "O mundo está cheio de pessoas assim"

Os publicitários gostam de fazer campanhas de cariz não-comercial, pois, fazendo-as à borla, têm uma liberdade criativa que lhes é coarctada quando trabalham para um cliente. Aqui não há cliente.

Um anúncio político português contra a abstenção eleitoral vai a caminho de um milhão de visualizações em França porque aborda um tema que está no centro da segunda volta das presidenciais: quem, à esquerda, centro e direita sistémica se abstiver é como se votasse em Marine Le Pen.

 

Foi realizado para o evento Festival Política por uma agência de publicidade. Não é assinado por uma entidade política, ONG ou empresarial - sendo, portanto, uma declaração política da agência sob a capa de "campanha" publicitária. Os publicitários gostam de fazer campanhas de cariz não-comercial, pois, fazendo-as à borla, têm uma liberdade criativa que lhes é coarctada quando trabalham para um cliente. Aqui não há cliente.

 

O que mostra o anúncio? Um homem entra num restaurante, cruza-se com um negro de saída e diz: "Então isto agora entra aqui tudo? Vai para a tua terra, pá!" Ficamos a saber que é um troglodita racista.

 

Ao balcão, pega no jornal. A manchete diz: "Primeira mulher à frente do Ministério da Defesa". Comenta: "vê-se logo que tem ar de ser mais uma histérica". Ficamos a saber que é um troglodita machista. Comenta o dono da casa: "Tropa era nas colónias!" O cliente comenta: "havemos de ir longe, havemos". Ficamos a saber que são trogloditas colonialistas.

 

Sobre os refugiados o cliente diz: "uma cambada! Anda para aí tudo a viver à conta do Estado!" Ficamos a saber que é xenófobo.

 

No televisor passam imagens duma marcha gay. Comenta o protagonista: "Só faltavam mais estes também! Que nojo, meu". Ficamos a saber que é um troglodita homofóbico.

 

Interrompe-se a narrativa com esta frase: "O mundo está cheio de pessoas assim". A segunda cena mostra o troglodita avançando para uma mesa de voto e depositando o seu boletim. Sai de cena e aparece a frase: "sempre que te absténs, são elas que decidem por ti".

 

A personagem é, portanto, um primata racista, machista, colonialista e homofóbico; mas é também um crente na virtude do primordial acto democrático: o voto. Custa a crer que estes trogloditas, ainda para mais "estando o mundo cheio" deles, sejam eleitores empenhados como neste anúncio. Ainda mais em Portugal, onde o único partido que se assemelha ao "programa" que ele delineia é o PNR, que em 2015 recolheu 0,5% do eleitorado; os restantes 99,5% votaram em partidos que se opõem àquelas ideias. O anúncio fará mais sentido em França, com uma Frente Nacional forte e disputando as presidenciais, embora o maniqueísmo primário do anúncio nem lá se aplique, dado que é liderada por uma mulher, não tem um programa colonialista e tem um razoável apoio entre a comunidade gay francesa, que receia o avanço do islamismo radical. Só acerta na xenofobia e no racismo.

 

A incongruência e o maniqueísmo do anúncio, que acabam por resvalar para a demagogia, são menos interessantes do que a postura política assumida pela agência. É que o anúncio não é contra a abstenção em geral, mas contra a abstenção de uma parte do eleitorado. A agência poderia ter feito este, mas também outros anúncios mostrando como a abstenção favorece as escolhas de quem vota: por exemplo, alguém de "esquerda" que vê a "direita" ganhar ou vice-versa.

 

Os criativos preferiram mostrar de forma grosseira quatro temas politicamente incorrectos que, em Portugal, têm escassíssima representação partidária. Provavelmente, fizeram o anúncio a pensar em França, razão por que faz sucesso na Internet legendado em francês. O anúncio destina-se a um público que se impressione com a demagogia barata das posições trogloditas da sua ficção. Não sei se passou pela cabeça dos criativos que haverá muitos mais abstencionistas que se revejam no discurso troglodita (pois não é que "o mundo está cheio de pessoas assim"?) e que decidam, em vez de se abster, votar nalgum partido que defenda essas ideias. Enfim, com pena o digo: este anúncio é ele mesmo propaganda troglodita. 

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