Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 07 de março de 2018 às 19:15

[746.] Bloggers, YouTubers

Uma parte do investimento publicitário foi desviado da publicidade comum para o patrocínio de comunicação comercial de marcas e produtos em meios informais de comunicação, como os blogues e canais no YouTube.

São meios que chegam a públicos que contactam pouco ou nada com media tradicionais, incluindo a televisão, o que, em qualquer circunstância, teria de atrair as empresas anunciantes e publicitárias. No actual mundo concorrencial, em que a bola parece estar do lado do consumidor, as empresas, directamente ou através dos seus agentes de marketing e publicidade, olham com atenção para estes novos nichos.

 

São espaços importantes. Alguns destes comunicadores chegam a muita gente, a milhões. Os contactos são quantificáveis, o que é um sonho dos anunciantes e publicitários tornado realidade. E, além disso, os bloggers e os YouTubers têm uma relação que aparenta ser directa com os consumidores, o que é uma comunicação diferente da publicidade clássica, mais impessoal, mais formal e idêntica nos diversos meios. As suas mensagens são vistas e ouvidas atentamente por milhares, centenas de milhares ou milhões. A comunicação do produto passa por cada um dos YouTubers, pessoalmente, é ele mesmo que a comunica. Não é novidade, pois isso já sucede em muita colocação de produto na rádio e na TV, mas nestes novos meios faz-se com mais liberdade ainda, pois as correntes que prendem bloggers e YouTubers às regras de conduta da comunicação mediática são mais frouxas do que as dos comunicadores de media institucionais, como as estações de rádio e de TV.

 

Os YouTubers que recebem mais atenção em Portugal têm sido os que trabalham para a miudagem até aos 15 anos, mas há muitos outros e outras, com públicos bem definidos. Os de topo, com milhões de seguidores, em Portugal e no resto do mundo dos falantes da língua, têm audiências e receitas muito superiores às da TV, não só pelo número de contactos num universo muito superior, como pelo investimento mínimo nos conteúdos, o qual é absolutamente irrisório quando comparado com o dos programas de TV.

 

Deste modo, os anunciantes chegam a um público amplo, específico (nomeadamente quanto a grupo etário e sexo), quantificado, com um "product placement" informal. Nalgumas das referências comerciais que vi de YouTubers, eles dizem que, pronto, tenho de fazer esta publicidade, vocês sabem como é que é, etc., fingindo que a fazem contrafeitos. Na verdade, fazem-na porque querem ganhar dinheiro, mais dinheiro do que o que já arrecadam através do YouTube. É, portanto, um pequeno teatro, que serve para normalizar, tornar aceitável a publicidade na sua comunicação pessoal, fingindo que ela está a mais no preciso momento em que chamam a atenção para ela. No fundo, criam uma cumplicidade deles mesmos e dos seus seguidores com as marcas e seus produtos. À conta dos YouTubers, as marcas e os produtos referidos tornam-se cúmplices dos seguidores. Dada a empatia dos seguidores com os seus ídolos internéticos, a comunicação publicitária aparenta ser altamente eficaz.

 

Não é esse o único interesse desta publicidade para as marcas e anunciantes. Que maravilha para os publicitários e marketeers trabalhar neste Far West, sem qualquer controlo institucional do Estado, dos pares - de ninguém, a não ser dos consumidores! Neste Far West não há lei aplicável, não há ERC, não há institutos de consumidores, não há tribunais, não há Livro de Reclamações! Há uma relação ténue entre as partes, tendo o comunicador de obedecer a um certo padrão comportamental (não pisando o risco que a sociedade traça) para poder continuar no YouTube, para ter o OK das marcas e para ter o OK dos seguidores. Eles não são revolucionários, nem revoltados. São uns bem-comportados apenas malcomportados na forma, que fazem umas asneiras sem perigo por serem jovens e que dizem uns palavrões por serem jovens. Quanto ao resto, são uns integrados na cadeia de produção, comunicação e consumo do capitalismo actual, de que beneficiam amplamente.

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