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Manuel Falcão - Jornalista 26 de Outubro de 2012 às 12:29

A esquina do Rio

Vítor Gaspar, notoriamente, é um homem informado, atento e estudioso; e é igualmente teimoso, insistente e orgulhoso.

Provocações
Vítor Gaspar, notoriamente, é um homem informado, atento e estudioso; e é igualmente teimoso, insistente e orgulhoso. Todos sabemos como se tem enganado nas previsões (até as agências de "rating" o fizeram notar), como insiste em receitas rígidas e como nunca vê nem ouve o que não lhe interessa. A teimosia em demasia é muitas vezes confundida com estupidez; no caso de Vítor Gaspar, a teimosia parece ser também uma forma de provocação. Escolhe as palavras que ficam na memória, como o célebre "enorme aumento". Conhece o peso político das palavras e frases que utiliza em momentos mediatizados. É o maior especialista em "sound-bytes" deste Governo. Nas últimas semanas fez, com uma regularidade espantosa, sucessivas provocações, sempre com o ar mais tranquilo do mundo - ao parceiro da coligação, ao Parlamento, a colegas seus ministros. Até a declaração sobre a nota de Cavaco Silva no Facebook tem um travo incontornável de humor negro. Eu acho que o homem é um exímio provocador que tem prazer em pisar o risco com as palavras - vê-se-lhe isso nos olhos, na expressão. Ao princípio ainda se dizia que Gaspar era politicamente ingénuo; agora já se percebeu que é intencionalmente provocador.

Por exemplo, esta semana anunciou que os portugueses querem mais do Estado do que os impostos que pagam, mas esqueceu-se de referir que o Estado é especialista em tirar aos contribuintes aquilo que eles já pagaram - nas reformas e pensões, para as quais descontaram durante a sua vida profissional. Já se sabe que o Estado não é pessoa de bem - e nessa matéria fica muito bem representado por Vítor Gaspar. Os burocratas, como cada vez mais se constata, acham sempre que baixar na despesa é difícil e que só se pode mexer nos apoios sociais - nem pensar em reduzir o peso do Estado já que é a sua enorme dimensão que garante o poder dos burocratas.

Mas o mais aflitivo no Governo, e creio que o problema começa em Vítor Gaspar porque faz parte do seu perfil provocador, é o desprezo pela negociação - internamente e com a Comissão Europeia. Vítor Gaspar saberá o que é negociar? Terá ideia de que há outros países que têm conseguido negociar - nos prazos, nos juros, nos apoios, na flexibilização de algumas metas e que mesmo assim têm continuado abrangidos pelos auxílios da troika? Mais valia Vítor Gaspar dizer que não gosta - ou não sabe - negociar e que prefere provocar. Negociar obriga a alterar modelos e dogmas - e provocar, não. Já me ocorreu que pode ser que Vítor Gaspar não saiba negociar ou que se incomode a pedir descontos. No dia-a-dia, pedir descontos e ajustes faz parte da negociação. Eu gostava de ter um Governo que negociasse, em vez de ter um Governo que obedecesse. Preferia um Governo flexível, inteligente e hábil a um Governo marrão, inflexível e sem raciocínio.


Ouvir
A carreira discográfica de Tori Amos começou há 20 anos com "Little Earthquakes", na altura um disco surpreendente. Depois de incursões em várias áreas, da electrónica à dança e até, pontualmente, ao hip-hop, Tori Amos como que fecha um círculo com "Gold Dust", o seu novo álbum, agora editado pela Deutsch Grammophon - é uma revisitação de 14 temas feitos ao longo da sua carreira, provenientes de 10 dos seus 12 discos, aqui com novos arranjos e com o acompanhamento da holandesa Metropole Orchestra. Este não é um "best of", no sentido que não são as canções mais conhecidas de Amos que ela escolheu -, mas aquelas que por alguma razão são mais autobiográficas ou marcantes do seu ponto de vista pessoal. Na realidade, este é um belíssimo cartão de visita para quem quiser conhecer ou revisitar a obra de Tori Amos.


Folhear
Já aqui tenho dito que sou fã e coleccionador do "Próximo Futuro", um jornal editado pelo programa, do mesmo nome, criado pela Fundação Gulbenkian. A edição agora distribuída (n.º 11, Outubro/Novembro) - e que pode ser recolhida gratuitamente na Fundação e numa série de locais em Lisboa - tem um excelente artigo de António Pinto Ribeiro (que é o programador da iniciativa) intitulado "O Choque Civilizacional É No Interior De Cada País", um bom portefólio fotográfico de Adonis Flores, uma ilustração com o traço inconfundível de Pedro Zamith e uma série de poemas de Fairdooz Tamini. Mais informações em www.proximofuturo.gulbenkian.pt.


Coligação
Nestas últimas semanas tenho estado inquieto com as pessoas que integram um Conselho de Coordenação da Coligação. Será que estão acamados e não têm podido agir, trabalhar, enfim, coordenar? Desde que esse Conselho foi criado, há notícia de uma reunião inócua - aquilo a que se chama uma "photo opportunity". Mas o Conselho conseguiu a proeza de passar invisível sobre toda a novela orçamental, com as medidas anunciadas e retiradas, com os cortes e contra-cortes, com declarações públicas contraditórias de dirigentes e o rol de descoordenação a que se tem podido assistir nos últimos dias. Tenho uma ideia para esclarecer este assunto: de facto, a Coligação já é apenas virtual, uma espécie de holograma político, e por isso nem faz sentido coordená-la.


Provar
Aqui e ali começam a ser reinventadas as padarias - que além de venderem pão, proporcionam pequenas refeições. Uma das mais recentes é "O Pão Nosso", que fica na Rua Marquês Sá da Bandeira 46B, perto da Fundação Gulbenkian. Lá provei um destes dias uma belíssima e tradicional tiborna de presunto e uma broa de mel que me trouxe sabores da infância. Na mesma ocasião, levei para casa uns belos bagels, e fiquei com olho num bolo levedo, na broa de milho e na broa de avintes. Muito território a explorar. Mais informações em www.opaonosso.pt.


Arco da velha
Eis o regresso aos mercados: a banca portuguesa cortou o financiamento às empresas em 6,8 mil milhões de euros este ano, mas investiu, no mesmo período, 7,4 mil milhões em dívida pública. Como dizia o outro, o dinheiro não chega para tudo…


Semanada
Um espião do SIS foi apanhado numa rede de lavagem de dinheiro; agências de "rating" duvidam dos números do orçamento de Vítor Gaspar; a receita com impostos recuou 4,7% entre Janeiro e Setembro; a contribuição per capita do IRS subiu 54% em 10 anos; no final de Junho, as contas da Segurança Social registaram o primeiro défice desde 2002; a dívida pública aproxima-se dos 200 mil milhões de euros; o número de famílias que pediu insolvência aumentou 500% entre 2007 e este ano; mais de 200 famílias de guardas da GNR pediram insolvência; o número de portugueses que emigram deverá ultrapassar os 100 mil este ano; no espaço de dois dias, o Governo cortou o subsídio mínimo de desemprego e depois recuou no corte; a receita com impostos recuou quase 4,7% entre Janeiro e Setembro, cerca de 1240 milhões de euros; o Banco de Portugal investiu mais de 40 milhões de euros em obras na sua sede, incluindo a criação do Museu do Dinheiro; uma manifestação contra o FMI registou mais polícias do que manifestantes junto aos escritórios da representação daquele organismo.


Ver
Três sugestões esta semana: a primeira é uma visita à Carpe Diem (Rua Do Século, 79) onde gostei especialmente de ver os desenhos "Lar Doce Lar…" de Cristina Ataíde, o vídeo "Cruzada", de Cinthia Marcelle, a instalação "Variações da Fé" de Hélène Vieira Gomes e Carlos Gomese, a "Pintura Descolada" de Rosana Ricalde e Felipe Barbosa; a segunda é a exposição de Maria Beatriz que assinala os 25 anos da Galeria Ratton (Rua da Academia das Ciências, 2C), e que recolhe obras do final dos anos 70 e princípio dos anos 80 - desenhos e um belíssimo painel de azulejos - sob o título genérico "Um Lugar À Mesa"; finalmente, até domingo, não percam a oportunidade de ver a exposição Blind Date, inserida na Lisbon Week, e que permite também descobrir o espaço, supreendente, da Biblioteca dos Paulistas - Igreja de Santa Catarina - Calçada do Combro, 82 - além de proporcionar um jogo de adivinhas sobre quem é o autor de cada obra exposta, todas do mesmo formato, mas não identificadas.



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