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Sérgio Figueiredo 09 de Março de 2004 às 13:55

... e Cardoso fala!

Os portugueses sofrem de dois males profundos: inveja e covardia. Os medíocres convivem muito mal com o sucesso alheio. E, o que é mais rasteiro ainda, procuram sempre liquidá-lo na clandestinidade.

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Os portugueses sofrem de dois males profundos: inveja e covardia. Os medíocres convivem muito mal com o sucesso alheio. E, o que é mais rasteiro ainda, procuram sempre liquidá-lo na clandestinidade.

A história recente da TAP está cheia destas histórias mesquinhas. De gente que convive entre si no maior dos cinismos e, depois, vem cá para fora, debaixo de anonimato, provocar assassínios de carácter, obviamente com a cumplicidade de muitos de nós.

Cardoso e Cunha percebeu que não podia ficar calado diante deste “folclore das contas”, como o próprio lhe chama. Aliás, reage ao desafio que ontem lhe era aqui lançado, da absoluta necessidade de se demarcar das notícias que arrasam a reputação da sua comissão executiva.

Foi o que fez. Demarca-se inequivocamente de tudo. Mas demarca-se sobretudo, e de uma forma ainda mais inequívoca, daquilo que originou este “folclore”: os tais resultados que apareceram com uns lucros rechonchudos de 26 milhões.

Classifica essa divulgação como um “acto hostil” aos interesses da empresa. E, provavelmente de forma involuntária, está a dar-nos uma grande novidade: que o verniz estalou e algo vai ter de acontecer no governo daquela sociedade.

Para o cidadão normal, que está habituado a viver com regras normais, numa empresa normal, as coisas são fáceis de entender quando: um conselho de administração e uma comissão executiva funcionam com uma agenda comum, prosseguem objectivos de empresa, respondem perante os accionistas, conforme os resultados que apresentam.

Na TAP, o que temos visto é um pouco diferente: um conselho de administração e uma comissão executiva que se toleram, devem até odiar-se cordialmente, mas que vão desconfiar um do outro até à morte; uma empresa que, por isso, tem duas agendas, pelos vistos duas contas diferentes, tudo debaixo da maior complacência do accionista.

O que Cardoso e Cunha nos está a dizer, ao assumir, sem ambiguidades, que nunca lhe passaram as contas fechadas de 2003 por baixo dos olhos – “quero vivamente confirmar-lhe que até hoje não vi, muito menos aprovei, quaisquer contas finais de 2003” – é que vai exigir explicações a Fernando Pinto, inverte o ónus da prova e obriga o ministro Carmona a actuar.

Até hoje, o país assistiu a um jogo de sombras chinesas, onde só cabiam insinuações, maledicências, projectos pessoais e politiquice mesquinha. Mas hoje, Cardoso fala! E nada pode ficar como dantes.

Nesta história já não há espaço para covardes. Agora só podem existir mentirosos. Tratando-se de gestores públicos, sejam eles quem forem, militantes do partido ou aviadores do outro lado do Atlântico, alguém deve sair.

PS: há uma história que ainda não está esclarecida, as tais contas “manipuladas” do ano passado foram precedidas por outras “marteladas” no exercício de 2002.

Ontem mandaram-me à cara o argumento: os jornalistas não vêem as contas, isso é falta de competência. Pode ser. Dos jornalistas. Dos presidentes das administrações. E dos ministros.

Afinal, quem entre estes tem a capacidade de nomear ou demitir gestores ao serviço do Estado?

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