André  Veríssimo
André Veríssimo 29 de setembro de 2016 às 00:01

A Alemanha a empurrar com a barriga

É de uma trágica ironia que a maior ameaça à estabilidade do sistema financeiro europeu possa vir da Alemanha, o país que há anos dá lições de estabilidade e solidez à Europa. O "made in Germany" atravessa uma crise existencial.

O Deutsche Bank é um mastodonte da alta finança mundial. Os activos que carrega no balanço valem 1,6 biliões de euros: o equivalente a metade do PIB alemão. Na categoria dos "bancos grandes demais para falir" é um dos maiores e dos piores: em Junho, o FMI dizia que o banco alemão foi o que mais contribuiu para o risco sistémico global. As comparações com 2008 surgem com facilidade e a nervoseira já atacou os mercados.


Há muito que nos meios financeiros se comenta o enorme risco que o Deutsche Bank carrega, comparado a um gigantesco "hedge fund". O nível de ansiedade cresceu em Fevereiro quando surgiram dúvidas sobre a capacidade do banco para pagar os juros de títulos subordinados que emitiu para fortalecer o seu capital, face à baixa rentabilidade gerada.

A coima do Departamento de Justiça dos EUA por causa da alegada venda irregular de produtos tóxicos, que pode chegar aos 14 mil milhões de dólares, surgiu como uma sentença. Para se ter uma ideia, a multa equivale a cerca de 80% do valor bolsista do banco, que nunca foi tão baixo. Dizem os analistas que mesmo que a sanção caia para metade, o banco terá de aumentar capital, num contexto que é adverso. Daí à hipótese de um resgate, foi um rastilho.

O CEO veio dizer que o banco é sólido, como uma rocha, e que não precisa de ser salvo pelo Estado. Os portugueses conhecem bem, e por experiência própria, o que este tipo de garantia pública costuma prenunciar. Apressou-se ainda a vender uma seguradora britânica para anunciar um encaixe de mil milhões de euros.

Os nervos são justificados, mas podem ser exagerados. Mesmo que o pior cenário para o Deutsche Bank se viesse a confirmar, há uma força imensa em ser um "banco demasiado grande para falir": ninguém deixará que isso aconteça. E o Governo alemão certamente não o deixará, mesmo que agora o negue. A decisão deixa Merkel entre a espada e a parede: ser trespassada pelos danos na economia ou esmagada pelos danos eleitorais de um salvamento público. Caso o Estado seja chamado a intervir, será interessante perceber como a chanceler e o seu ministro das Finanças conseguirão fugir à ortodoxia na aplicação das regras do "bail-in" que impõem noutros países.

Seja qual for o desfecho, e espera-se que seja o mais benigno possível, ficou mais evidente a situação frágil em que ainda se encontra o sector financeiro da Zona Euro. E este caso, tal como o da banca italiana, é revelador de que empurrar os problemas com a barriga está longe de ser um desporto nacional. Com uma agravante: as consequências agora poderão ser muito mais graves. 

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