Paulo Carmona
Paulo Carmona 16 de abril de 2018 às 20:58

A dieta ioió

E depois de Centeno se pirar para a troika? Quem ficará para tomar conta das contas do Estado, uma máquina velha, por falta de reposição de capital, sem músculo, manutenção e zangada de fome?

A FRASE...

 

"O governo de esquerda em Portugal está a prosperar em parte porque não é especialmente de esquerda. Por enquanto, a política está fixada em deficits e dívidas, e não em investimentos e serviços públicos. Um governo de centro-direita estaria fazendo o mesmo."

 

The Economist, 13 de abril de 2018

 

A ANÁLISE...

 

A única consequência prática desta última "minicrise" de palavras entre o Governo e os seus apoiantes de esquerda foi o facto de este ter finalmente "saído do armário". Pela primeira vez assumiu a sua preocupação, ou obsessão, com as contas públicas. Ou seja, a continuidade das políticas do governo anterior, de respeito pela única restrição ativa que pende sobre o país, a que nenhum governo foge, nem o Syriza, que é o respeito pelos compromissos com credores/União Europeia/Eurogrupo.

 

Esta política responsável tinha sido comentada, aqui e noutros fóruns, mas sempre negada por vergonha ou taticismo político. Por um lado compreende-se, pois esta política responsável de continuidade e respeito pela troika nada tem a ver com as críticas ao governo anterior nem com o plano dos 12 sábios economistas apresentado pelo PS antes das eleições. Na prática, nenhum do brutal aumento de impostos de Vítor Gaspar foi revertido, apenas alguma reposição salarial de cortes da era Sócrates, 2010, mantendo-se o congelamento salarial e de carreiras. Felizmente, o grande fator de crescimento do consumo/IVA foram os turistas e o crédito, nada a ver com o Estado. Mesmo aquelas questões tão vilipendiadas pela esquerda como a lei das rendas ou laboral não vão nem foram alteradas na sua essência, apenas em questões de cosmética e de narrativas, em que o Governo é forte, mesmo escondendo o que faz bem…

 

Infelizmente, Mário Centeno teve de gerir o Orçamento duma forma sonsa. Ou seja, cortava às escondidas e ao contrário do que tinha sido aprovado. E assim emagreceu o Estado através duma dieta ioió, como outros antes dele, obrigando-o a passar fome por restrição alimentar, vulgo cortes e cativações nos consumos intermédios e investimento. Normalmente as consequências destas dietas são engordar novamente assim que acabar essa restrição, pois nada de fundamental quanto à fome se alterou, e o corpo ir reduzindo a massa muscular para compensar.

 

E depois de Centeno se pirar para a troika? Quem ficará para tomar conta das contas do Estado, uma máquina velha, por falta de reposição de capital, sem músculo, manutenção e zangada de fome? O último a sair que apague a luz…

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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