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João Costa Pinto 03 de Junho de 2019 às 17:25

A economia e o euro - (II)

A situação atual é, como sabemos, marcada por uma atuação do BCE com uma dupla preocupação: suportar diretamente a liquidez dos mercados do euro e dinamizar a procura - consumo e investimento - de modo a evitar o enraizamento de um clima depressivo e deflacionário.

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1. No último artigo referi que embora a evolução do enquadramento europeu não favoreça movimentos de modernização nas economias menos competitivas e mais alavancadas - os exemplos português e italiano são óbvios - é internamente que devemos procurar a origem dos bloqueamentos com que a nossa economia se debate. Referi, em particular, dois tipos de causas: políticas públicas incapazes de impulsionar as transformações necessárias à modernização do nosso tecido produtivo; uma intermediação financeira - mercado bancário - que tem contribuído para a reprodução de um tecido produtivo atomizado e pouco competitivo.

 

Em próximos artigos proponho-me abordar os desafios e as dificuldades que se vão colocar ao Governo que vier a emergir das eleições legislativas de outubro, à luz de dois tipos de questões: as limitações do modelo que tem suportado o crescimento da nossa economia nos últimos anos; as implicações sobre o financiamento das mudanças que se estão a operar no nosso mercado bancário.

 

Esta avaliação deve no entanto ser feita tendo em conta o enquadramento europeu em que nos movemos, em particular as contradições e os riscos das políticas adotadas como resposta à crise financeira.

 

A situação atual é, como sabemos, marcada por uma atuação do BCE com uma dupla preocupação: suportar diretamente a liquidez dos mercados do euro e dinamizar a procura - consumo e investimento - de modo a evitar o enraizamento de um clima depressivo e deflacionário. Com este objetivo mantém há anos taxas negativas de intervenção e acumulou no seu balanço volumes elevados de dívida soberana. A manutenção pelo BCE de uma Política Monetária não convencional expansionista por um período tão longo levanta, por sua vez, dois tipos de questões: a primeira prende-se com a sua aparente ineficácia. Apesar da agressividade das medidas adotadas - injeções maciças de liquidez e taxas de juro negativas - as economias da área do euro têm vindo a crescer a taxas modestas; a segunda decorre dos seus efeitos perversos sobre o aforro e sobre a distorção da avaliação do risco por parte dos investidores, na sua procura de rendimento.

 

No entanto, o impacto expansionista da continuada ação do BCE tem sido travado pelo efeito conjugado de dois tipos de fatores: por um lado, por políticas orçamentais restritivas, adotadas mesmo pelas economias excedentárias; por outro, por mercados bancários - interbancários e de crédito - que permanecem fragmentados e espartilhados por uma densa rede regulamentar. Como resultado, o impacto final das ações do BCE não é homogéneo, sobretudo nas economias devedoras mais frágeis. Nestas, o custo do financiamento público caiu para níveis sem precedentes, reduzindo o serviço da dívida e alimentando artificialmente um sentimento de alívio, depois da crise. Em contrapartida, o financiamento do tecido produtivo permanece retraído, sobretudo no que se refere ao investimento, com reflexos claramente negativos sobre a inovação e a produtividade.

 

2. A verdade é que no novo quadro político europeu não são de esperar alterações substanciais em relação ao avanço da integração financeira. Em particular, no que se refere a duas questões centrais: o lançamento de um "ativo europeu sem risco" (*) e o avanço da União Bancária. O que faz com que a ação pós-Draghi do BCE assuma uma importância crítica.

 

 É à luz deste quadro que devemos procurar respostas para os bloqueamentos e dificuldades que têm vindo a travar o nosso desenvolvimento económico e social (a continuar).

 

(*) - Elemento-"chave" para o desenvolvimento de um mercado pan-europeu de capitais.      

                  

Economista  
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