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João Costa Pinto 18 de Junho de 2018 às 19:42

A economia portuguesa no "pós-troika" - (II)

Embora a estrutura produtiva se tenha vindo a alterar favoravelmente, com um aumento do peso das exportações de bens e serviços no PIB - cerca de 45% no final de 2017 -, a produtividade global do trabalho tem vindo a cair.

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1. No artigo anterior referi o comportamento favorável da nossa economia - retoma do crescimento, contas públicas controladas e uma queda rápida do desemprego - e deixei em aberto algumas questões quanto à natureza da retoma: esta tem sido acompanhada por transformações estruturais com reflexos favoráveis sobre a eficiência e a competitividade do nosso aparelho produtivo? Trata-se de um movimento sustentável que está a tornar a economia mais robusta e capaz de absorver choques exógenos significativos? Ou, pelo contrário, é sobretudo o resultado da convergência de factores conjunturais favoráveis que, por si só, não garantem a sustentabilidade do crescimento e do desenvolvimento económico e social, cruciais seja qual for o futuro da Europa do euro?

 

A resposta a estas questões passa grandemente por avaliar como é que a retoma da actividade económica se está a reflectir na organização, no funcionamento, na estrutura financeira das nossas empresas. Está a robustecer o nosso tecido produtivo que historicamente sempre se manteve atomizado, ineficiente e pouco competitivo? Quais os sectores que estão a crescer e que tipo de emprego estão a criar? A nossa "economia real" está de facto a mover-se para patamares superiores de eficiência e produtividade, capazes de garantir - mesmo que de forma gradual e a prazo - uma aproximação aos níveis médios de bem-estar europeus? Capaz de oferecer melhores salários sem perdas de competitividade?

 

Embora a estrutura produtiva se tenha vindo a alterar favoravelmente, com um aumento do peso das exportações de bens e serviços no PIB - cerca de 45% no final de 2017 -, a produtividade global do trabalho tem vindo a cair. Trata-se de uma questão central, dado que a melhoria sustentada dos níveis de bem-estar dependem a prazo de aumentos da produtividade por trabalhador.

 

Sendo certo que a generalidade das economias avançadas se está a debater com uma estagnação da produtividade, entre nós esta questão é crítica, dado o seu baixo nível relativo - comparado com a média da Zona Euro - e o padrão actual de crescimento. Na verdade, a evolução desfavorável da produtividade está no nosso caso a reflectir - além do baixo investimento em capacidade produtiva, verificado nas últimas duas décadas - as características das actividades que mais estão a contribuir para a criação de emprego e que, em grande parte, gravitam em torno do turismo. Sectores que, embora de importância estratégica na actual fase do desenvolvimento da nossa economia - pelo emprego que criam e as receitas que geram -, não asseguram o salto qualitativo necessário em termos de eficiência e produtividade.

 

2. Esta evolução está a ser determinada por um complexo conjunto de factores: um contexto externo muito favorável ao crescimento dos fluxos turísticos; um movimento muito lento da recomposição do nosso tecido produtivo, depois da desagregação provocada pelo programa da troika; a dificuldade em "pôr de pé" um programa articulado de políticas e medidas dirigidas à reorganização, à modernização e ao crescimento do nosso aparelho produtivo; por último, a falta de vocação - mesmo de interesse no contexto actual - do mercado bancário para apoiar e favorecer um tal movimento, com a generalidade dos bancos a dirigir a sua oferta de crédito para actividades e sectores de baixa eficiência e produtividade. (Questões para outro dia).

 

Economista

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