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A EDP e o grande bónus da influência 

O controlo de uma empresa tão ligada ao regime como a EDP confirmará o Partido Comunista da China como o grande novo poder em Portugal.

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A EDP encaixa que nem uma luva na estratégia económica do Partido Comunista da China. É uma marca internacional reputada que entra bem nos mercados que interessam a Pequim. Está num negócio em que a China quer ser líder, as energias limpas. É uma montra europeia para os produtos chineses (três dos dez maiores fabricantes de turbinas eólicas, por exemplo, são chineses). Permite absorver inovação e formação. Opera em mercados cujo funcionamento a China quer perceber. E, "last but not the least", gera milhões em dividendos.

 

Por estas razões, a China Three Gorges - que tal como a State Grid, accionista da REN, faz parte de uma elite de 49 empresas públicas com maior acesso ao Partido Comunista e sob seu controlo mais directo - conseguiu luz verde do regulador estatal SASAC para lançar a segunda maior operação chinesa na Europa. Não é coisa pouca numa altura em que Pequim está a apertar as aventuras externas dos conglomerados ditos privados. Acontece agora porque a concorrência europeia anda a namorar a EDP e porque em Bruxelas, Berlim e Paris começa a ferver um caldo de resistência ao investimento chinês em activos estratégicos.

 

Se as razões que levam a China Three Gorges a querer controlar a EDP são de carácter global, o eventual sucesso da OPA vale um bónus importante em Portugal: influência. Para citar um trabalho da Fundação Francisco Manuel dos Santos, "uma das principais mais-valias do Grupo EDP é a capacidade de influência política e económica junto do Governo nacional e de outras instituições". Na política, a influência vem da escala da empresa e das ligações pessoais entre os membros do conselho de supervisão (uma longa lista de ex-políticos) e os governantes do momento. A escala é também o que dá peso à EDP nas "outras instituições", seja como anunciante nos media ou como agente de filantropia através da Fundação EDP.

 

O capital e o Partido Comunista chineses, que caminham sempre de mão dada, já comandam um grau apreciável de influência no país - veja-se, por exemplo, como a OPA tem gerado pouco barulho. A China trabalha para isso. As empresas trazem dinheiro e ambição, apostam na influente elite local e a política esforça-se por projectar "soft power", estabelecendo parcerias com universidades e organizando eventos com associações locais. Mas o controlo de uma empresa tão ligada ao regime como a EDP, a concretizar-se, significará um passo enorme na influência, confirmando o Partido Comunista da China como o grande novo poder em Portugal. O que isso significa - as vantagens e os riscos - continua largamente por debater.

 

Jornalista da revista Sábado

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