Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 22 de fevereiro de 2018 às 20:40

A escolha difícil de António Costa em 2019

As regras da relação entre economia e política sugerem que Costa vence as legislativas, mas sem maioria absoluta. O PS será partido charneira em posição de maioria. Para onde irá virar? A resposta é tudo menos evidente.

A ligação entre resultados eleitorais nas legislativas em Portugal e o ciclo económico sugere duas regras. A primeira: um ciclo económico favorável mantém os incumbentes políticos no poder. A segunda: com as dificuldades decorrentes da entrada do país no euro tornou-se mais difícil para um só partido conseguir uma maioria absoluta. Estas regras admitiram excepções nos últimos 30 anos, sempre que a política teve mais força do que o ciclo económico. Quando Guterres venceu Nogueira em 1995, a economia já saíra da recessão, mas o desgaste do cavaquismo era enorme. Quando Sócrates conquistou em 2005 uma maioria absoluta em condições económicas difíceis, o PSD de Santana estava de rastos. E quando em 2015 a coligação Pàf perdeu 700 mil votos já com a retoma em curso, as marcas da crise e a percepção de Passos como um perigoso neoliberal falaram mais alto.

 

Mas, sem condições políticas extraordinárias, mantêm-se as regras - ou seja, se a solução governativa do PS durar até ao fim, se não houver inversão abrupta do ciclo económico ou se a liderança de Rui Rio não se autodestruir, então António Costa vencerá as legislativas, provavelmente sem maioria absoluta. Há riscos nestes "se" (como atesta a entrada desastrada de Rio), mas é razoável admitir que, juntos, formam um cenário central. Por outras palavras: Costa vence as legislativas, mas sem maioria absoluta. O PS será um partido charneira em posição de maioria. Para onde irá virar? É aqui que as coisas ficam mais interessantes porque há incentivos nos dois sentidos.

 

Num trabalho de São José Almeida, no Público em 2016, várias pessoas na órbita socialista afirmavam que a erosão do eleitorado do centro e o encosto do PSD à direita tornavam impossível que o PS no futuro voltasse a virar para o PSD. Esta é uma previsão ousada, mas que dá conta do espírito dentro do PS actual, em particular a sua jovem e aguerrida ala esquerda. Se o partido conseguir forjar uma maioria à esquerda com o Bloco, Costa terá pouca margem interna para não tentar seguir essa via - e menos ainda para se virar para a direita, por mais reaproximada que esteja do centro. 

 

Mas os quatro anos de governação a seguir a 2019 não vão ser iguais aos últimos. As reversões estarão feitas e a pressão - de Belém, do mercado de dívida, de Bruxelas - estará na realização de reformas estruturais, eufemismo para medidas-difíceis-com-custo-hoje-e-ganho-amanhã. Mais importante ainda, já há sinais de que o ciclo económico global, de que depende o português, vai mudar. Não será uma surpresa: oito anos de crescimento ininterrupto é coisa só vista no cavaquismo, outra era. Uma maré mais agitada será um teste à capacidade de uma coligação - ou de um novo arranjo parlamentar - para adoptar medidas mais impopulares. Olhando por este ângulo, o incentivo é para Costa não querer estar amarrado ao Bloco.

 

Ser partido charneira é isto. António Costa conquistou este lugar para o PS e estará, em 2019, perante uma escolha interessante e difícil - mais difícil do que em 2015, quando lutava pela sua sobrevivência e pela do partido. A dimensão do seu resultado eleitoral e o ponto do ciclo económico serão a chave para perceber o que irá fazer. À distância de um ano e meio para esta decisão, uma eternidade em política, é muito difícil prever seja o que for, incluindo a total impossibilidade de um entendimento ao centro, ainda que através de acordos parlamentares, com o PSD de Rio. No jogo político, estes serão tempos interessantes.

 

Jornalista da revista Sábado

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comentários mais recentes
surpreso1 22.02.2018

Não tem que saber .Com o chacha do Rio,à direita,interessa-lhe garantir a "paz social" ,ou seja que o PCP meta os rebanhos no redil

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