José Maria Brandão de Brito
José Maria Brandão de Brito 01 de julho de 2014 às 21:00

A Europa e Portugal: algumas ideias

Talvez seja cedo para anunciar que nos vamos aproximando do fim deste episódio liberal conservador.

 

Da sua insensibilidade social, da sua crença cega na 'infalibilidade' dos mercados, na utopia da possibilidade da liberdade absoluta, no acreditar que a satisfação do interesse geral é resultado da soma da dos componentes individuais da sociedade.

 

Por isso, talvez seja prematuro perspectivar o regresso a um liberalismo socialmente empenhado, mais "keynesiano", porque mais  preocupado com as pessoas que com o dinheiro, com o desenvolvimento que com o crescimento, com o valor das coisas que com o seu preço.

 

Mas já se sente que algo está a mudar. Que este intervalo de excessos está a chegar ao fim, porque para muitos o desastre foi brutal e os erros devem ser corrigidos. As sociedades estão profundamente diferentes das que Keynes conheceu e sobre as quais escreveu procurando solucionar os problemas que as afectavam, tentando encontrar essa solução no quadro da relação do desemprego com as políticas monetárias, no livro V, (cap. 24) da "Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda". O que Keynes demonstra é como as suas propostas são compatíveis com o individualismo e que não é necessário sacrificar o liberalismo para encontrar o equilíbrio social. Os tempos são de facto outros embora o sistema seja o mesmo e as questões controvertidas sejam intrinsecamente semelhantes.

 

Perante a paralisia ideológica que se apoderou dos dirigentes europeus, incapazes de afrontar uma realidade que temem porque desconhecem e para a qual têm uma única receita, começam a surgir alguns sinais encorajadores: o cansaço dos povos que se revelou nas eleições para o Parlamento Europeu, a patente miopia obsidiante dos defensores desta ortodoxia, o aparecimento de políticos de uma nova geração em Itália, na França e, esperemos, em Espanha e em Portugal, são indícios que podem constituir os sinais percursores de que algo começa a mudar. Tal como Stuart Mill não se conformava com a condenação ao "estado estacionário" que os seus colegas e predecessores anteviam para o futuro do sistema liberal, também nós iremos ser capazes de superar este percurso empobrecedor que nos dizem não ter alternativas. Talvez seja então melhor ponderar o pensamento do "liberal" Keynes como elemento de equilíbrio do caminho único postulado pelo "liberal" Hayek, numa irónica "remake" do que se passou quando os dois rivais defendiam as suas posições, respectivamente em Cambridge e Londres, nos já longínquos anos 30 do século XX.

 

Aqueles que tomaram conta das políticas económicas em Portugal ainda vão pugnar pelas suas ideias que, pelos resultados, se têm mostrado estar erradas; não porque aos seus argumentos falte rigor e elegância, como afirmou Keynes e, implicitamente, todos os que foram desenvolvendo as suas teorias ao longo dos tempos, mas porque partem de pressupostos falsos e reduzem a realidade a um preconceito, a um caso especial: daí a ideia de que só há desemprego voluntário e as suas preocupação privatizadoras, sem cuidar das consequências traduzidas em destruição de emprego, em empobrecimento, na redução à expressão mínima do 'estado social', num crescimento anémico, num aumento incomportável da dívida pública.

 

O seu pensamento único é incompatível com o nível de civilização, cosmopolitismo e sofisticação agora atingidos. A Europa e Portugal não podem continuar a ser o laboratório destas velhas-novas teorias que aqui têm vindo a ser experimentadas. O futuro não os vai poder tolerar por mais tempo porque estes tempos estão a ser dramaticamente nefastos.

 

Economista. Professor do ISEG/ULisboa 

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