António Moita
António Moita 12 de agosto de 2018 às 18:00

A exceção, a regra, o sucesso e a verdade

Quando as calamidades entram na discussão política encontramos sempre diferentes abordagens e justificações. Todas ao jeito de cada interesse e poucas, ou nenhuma, feitas com isenção.

Depois do terrível ano de 2017 dificilmente apagável das nossas memórias, eis que nos prometiam um ano diferente. Na preparação, no reforço de meios e no resultado. O Governo aplicou-se e até o Presidente prometeu que não se recandidataria se a desgraça se repetisse.

 

Já se sabia que a serra de Monchique corria um enorme risco. Porquê? Tão-só porque não ardeu no ano passado e porque o último incêndio grave que aí ocorreu aconteceu em 2003. Passados 15 anos seria tempo de voltar a arder. Mas felizmente os meios estavam a postos e não morreu ninguém. Ardeu uma área vastíssima, mas como é propriedade privada e como o ordenamento do território tem os problemas que conhecemos era difícil fazer melhor. Esta conversa meio desconexa feita ao mesmo tempo que as televisões e as redes sociais não paravam de nos transmitir imagens impressionantes levanta-nos de novo grandes perplexidades.

 

Paremos então e, com base em mais uma expressão infeliz e facilmente retirável do contexto de António Costa, façamos o ponto de situação. Constituiu este caso uma exceção? Julgo que sim. Este ano, ainda não tinha havido um incêndio desta dimensão nem que tivesse durado sete dias a combater. A regra tem sido diferente? Julgo que sim. Apesar de terem sido registadas milhares de ignições um pouco por todo o país, a verdade é que o seu combate tem sido realizado de forma pronta e eficaz. Podemos falar de sucesso na estratégia de atuação e combate da Proteção Civil? Julgo que sim. A preocupação com as pessoas e a não existência de vítimas mortais é sempre um facto relevante e que deve ser enaltecido. E a máquina governamental de propaganda lá vai conseguindo manter a ideia de que este ano tudo está a correr muito melhor.

 

Mas estaremos a falar verdade? Julgo que não. Os incêndios continuam a existir em número preocupante o que revela que a prevenção e a repressão ainda não se fazem devidamente. Os meios foram reforçados, mas continua a existir uma descoordenação no terreno que tem consequências evidentes quer no atraso ao combate quer na forma atabalhoada de atuação junto das populações afetadas. Uma nova visão do ordenamento do território tarda e não se vê que o problema se resolva tão cedo seja pelo regresso à agricultura seja pelo repovoamento de zonas entretanto abandonadas à sua sorte.

 

O problema, mais do que técnico, é político e levará anos a ser mitigado. Falar verdade aos portugueses e conseguir pôr todos os partidos do mesmo lado talvez seja uma preciosa ajuda para que a nossa proteção e segurança melhorem e não sirvam de arma de arremesso nas disputas entre líderes à procura de votos. Isso é que passaria a ser uma "regra de sucesso".

 

Jurista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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