José Paulo Esperança
José Paulo Esperança 22 de março de 2017 às 20:01

A fénix e a banca

A banca portuguesa parece moribunda. 2017 marca o fim da década "horribilis" iniciada com a falência do Lehman Brothers e rapidamente exportada para o resto do mundo, com particular severidade para a Europa.

As baixas taxas de juro e a redução abrupta do crédito, tanto ao investimento como ao consumo, reduziram drasticamente as margens da banca enquanto o registo de imparidades resultantes de créditos sem possibilidade de recuperação levaram à acumulação de prejuízos generalizados e à necessidade de resgate público de quase todos os bancos portugueses, públicos e privados.

 

Até esse período, a banca tinha sido um dos principais motores da economia portuguesa, como intermediária entre aforradores e investidores, como geradora de emprego e como fator de inovação. O caso da rede multibanco é um modelo de cooperação que permitiu aos portugueses o acesso a um serviço normalizado e universal enquanto a maioria dos países europeus ainda tinha um sistema fragmentado ou exclusivamente manual.

 

A banca desempenhou um papel central na inovação, colocando Portugal na liderança mundial nos sistemas de pré-pagamento dos telemóveis, da automatização de pagamentos de portagens ou estacionamento (Via Verde), do software de "call centers" para serviços financeiros e até de equipamentos físicos como as máquinas de Multibanco fabricadas pela Papelaco, um dos investimentos mais temerários jamais realizados, por uma empresa sem qualquer experiência anterior nessa atividade. Claro que a banca também sustentou bolhas imobiliárias e endividamento excessivo de famílias e empresas, pagando um preço pesadíssimo quando a redução drástica da despesa pública e privada a obrigou a uma combinação tóxica de redução de atividade e registo abrupto de imparidades.

 

No entanto, existem sintomas de resiliência. Pequenos bancos, outrora frágeis, emergiram da crise com solidez reforçada enquanto a reengenharia de operações e formas de financiamento permitiu a consolidação do sistema bancário em geral. Embora ainda frágil, a recuperação do setor imobiliário e de setores capital intensivos, como a hotelaria, permitem augurar um futuro próximo mais desafogado. A agência de "rating" Fitch prevê a recuperação da banca portuguesa, embora no médio prazo (DN, 17 de março).

 

Por outro lado, Portugal tem vindo a atrair a localização de estruturas de suporte de diversos bancos estrangeiros reforçando o "cluster" financeiro e o nível de competências do setor, fator que pode contribuir para a captação de bancos forçados a deslocalizar-se em consequência de restrições aos fluxos financeiros provocadas pelo Brexit. Também o prestígio de gestores bancários portugueses no Reino Unido, só comparável ao dos profissionais de outra atividade fortemente globalizada,  o futebol, facilita o reconhecimento de Portugal como localização atrativa para o setor financeiro. Se o quadro legal e a política fiscal se aproximassem do modelo irlandês, Lisboa poderia competir seriamente com Dublin na vaga de deslocalização bancária em curso. E se a banca renascer das cinzas como a fénix, a economia portuguesa que também resistiu em contexto adverso encontrará de novo um poderoso motor de desenvolvimento.

 

Diretor da ISCTE Business School

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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