Harold James
Harold James 28 de abril de 2016 às 20:30

A guerra geracional europeia

Como mostram as populações da Europa e do Japão, a pirâmide demográfica está a inverter-se rapidamente – e uma guerra de gerações, em vez de classes, está a emergir.

Em todo o mundo industrializado, os governos estão apressadamente a dar dinheiro aos mais velhos. O Governo alemão não apenas reverteu o aumento da idade de reforma direccionado a tornar o sistema de pensões mais comportável, como anunciou recentemente um aumento de 5% dos benefícios, o maior aumento deste tipo desde 1993 (quando, ao contrário de hoje, a Alemanha estava verdadeiramente a experienciar um período de inflação). O Governo do Lei e Justiça na Polónia, numa das primeiras medidas depois de assumir o poder no ano passado, reduziu a idade de reforma e aumentou o valor das pensões.

Numa altura em que os orçamentos públicos estão esticados, esta tendência poderá parecer contra-intuitiva. E, na verdade, o Governo do Reino Unido avançou na direcção oposta, cortando os apoios por incapacidade (embora um gabinete ministerial se tenha demitido em protesto). Mas a tendência global para o aumento dos benefícios aos mais velhos tem uma explicação simples: política.

Como mostram as populações da Europa e do Japão, a pirâmide demográfica está a inverter-se rapidamente – e uma guerra de gerações, em vez de classes, está a emergir. A guerra é primeiramente travada nas urnas de voto – as pessoas mais velhas vencem eleições. Enquanto a população jovem fica em casa – e os despojos ficam nos orçamentos nacionais, numa balança junto à educação, pensões, cuidados de saúde e regimes fiscais. Com este choque, o pacto inter-geracional que suportou durante muito tempo a estabilidade política e social tem vindo a partir-se.

O filósofo conservador Edmund Burke via a sociedade como um contrato não apenas entre "aqueles que estão a viver", mas também "com aqueles que estão mortos" e "aqueles que estão para nascer". Burke desconfiava de políticas populares que favorecessem a geração actual em detrimento da futura. O pai da economia do bem-estar, Arthur Pigou, pensava que o Estado protegeria, de alguma forma, o contrato social com os parceiros ausentes, mas essa visão era desesperadamente idealista. Que motivo teria o Governo para ser mandatário de pessoas desconhecidas à custa dos reais e presentes eleitores?

O foco no presente tem consequências de longo alcance. O impacto é particularmente severo no contexto da mobilidade laboral, em que os derrotados nas urnas – os jovens – empunham outra arma: os seus pés. Em países dominados por políticas geriátricas, tipicamente as pessoas jovens tentam partir o mais rapidamente possível. E porque os mais jovens recebem generosos subsídios na forma de educação, quando partem levam com eles recursos que de outra forma poderiam ter sido utilizados para pagar as pensões de reforma de outras pessoas. Pondo de outra forma, deixam para trás um fardo de dívida que será muito mais difícil de reduzir sem eles.

Esta tendência é alimentada pelas oportunidades económicas inadequadas no país de origem. Em meados do século XX, o rápido crescimento económico implicou que cada geração teria um futuro melhor que a anterior. Hoje, pelo contrário, a generalização do mal-estar e as perspectivas de estagnação secular fazem com que as promessas de um futuro melhor pareçam fraudulentas.

Em muitos países – particularmente no Mediterrâneo, mas também em qualquer outro lugar na Europa, assim como no Norte de África – o desemprego jovem atingiu níveis recorde, devido a uma combinação de políticas macroeconómicas problemáticas e más políticas laborais. Aparentemente, com os jovens inclinados a partir, investir crescentemente em educação parece ser um desperdício. Com o sector da educação a decrescer, a quantidade de investimento em capital humano que os migrantes absorvem diminui – mas também a quantidade de capital humano que fica para trás.

Uma melhor abordagem passaria por reverter o êxodo dos mais jovens através de melhores políticas, tal como a Irlanda fez no final do século XX, com o rápido crescimento económico a contribuir para que vários trabalhadores especializados que tinham saído do país nos anos 1980 voltassem – e estimulassem um crescimento ainda mais rápido. Contudo, de forma a que tal inversão ocorra, a população jovem dos países de origem tem de tornar-se mais aberta e mais inovadora – o que não é de somenos, especialmente quando são os mais velhos que detêm o controlo político. Resumidamente, há vários circuitos de retorno que permitem à gerontocracia auto-reforçar-se.

O dano forjado pela preferência pelos mais velhos em vez dos mais novos estende-se para lá das economias nacionais. O dano ambiental a uma escala global garante, talvez, a mais pura ilustração de como hoje a população de meia-idade está a tomar decisões sem considerar a geração mais nova – e aquelas que se lhe seguirão.

Na verdade, o aquecimento global, por exemplo, é regularmente visto enquanto a imposição de um encargo para as gerações futuras. Enquanto a escala deste fardo ainda não foi inequivocamente calculada, é evidente que aquele poderia ser substancialmente reduzido investindo agora relativamente pequenas quantias numa base global. Ainda assim os países continuam a falhar ao não fazerem tais investimentos. Quando chegar a altura de implementar os necessários ajustamentos, estes serão um problema da próxima geração – e vão custar muito mais.

Neste sentido, as gerações actuais estão a impor uma espécie de taxa aos seus sucessores, que, por sua vez, já estão ávidos por oportunidades de vida. Alguns comentadores descrevem este fardo em termos ainda mais brutais, dizendo que a actual geração está essencialmente a colonizar o futuro enquanto, como muitos colonizadores europeus no passado, retira ao mundo as suas riquezas e deixa um deserto àqueles que foram colonizados.

Pode dizer-se que é desesperadamente ingénuo esperar altruísmo da geração actual. E, na verdade, na cultura egocêntrica de hoje em dia é difícil esperar que as pessoas coloquem os interesses das gerações futuras em primeiro lugar. Para já, a válvula de segurança provida pela mobilidade laboral poderá descartar uma revolta dos jovens contra o egoísmo e complacência dos mais velhos. A questão passa por saber o que acontecerá quando as oportunidades no estrangeiro não forem melhores do que em casa.

Harold James é professor de História a Relações Internacionais na Universidade de Princeton e membro sénior no Center for International Governance Innovation.

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org 
Tradução: David Santiago

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