Fernando  Sobral
Fernando Sobral 11 de fevereiro de 2018 às 20:15

A Gulbenkian e a Partex 

Calouste Gulbenkian foi um solucionador de conflitos e um negociador nato. Se o petróleo foi a fonte da sua riqueza, a sua capacidade de diplomata tornou-o um atento observador das belezas do mundo.

O seu amor à cultura nasceu daí. O petróleo financiava a cultura. Não servia apenas para produzir (e reproduzir) dinheiro. A Fundação Gulbenkian inalou esse oxigénio. Numa época em que as trevas deixavam pouco espaço para a criatividade artística ou para o desfrute cultural em Portugal, a Gulbenkian foi o verdadeiro Ministério da Cultura deste país. O que lhe devemos é incalculável. Sei do que falo: foi nas carrinhas carregadas de livros da Gulbenkian que descobri muitos dos meus heróis de sempre e alimentei algumas das curiosidades que nunca me abandonaram. Os cinco por cento de Calouste Gulbenkian fizeram de Portugal um país culturalmente mais rico. Com o tempo, a Fundação que tem o seu nome teve de se adaptar às circunstâncias e aos constrangimentos económicos. Deixou de estar só no apoio à cultura. Mas nunca perdeu o seu lugar incontornável.

 

Atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir, cantava Fausto. E isto aplica-se à Gulbenkian. Não se percebe por isso a gritaria em volta da possível venda da Partex (a principal fonte de financiamento da Fundação), o seu braço petrolífero. É claro que, a prazo, o petróleo vai deixar de ser o ouro negro. Quando os automóveis deixarem de utilizar gasolina, o primeiro passo para a grande mutação estará dado. Por outro lado investir hoje na prospecção petrolífera é um encargo que poderá não ser rentável no futuro. Ou seja, a Gulbenkian tem, antecipando-se, de descobrir outras fontes de financiamento que não passem pelo petróleo. Vender a Partex, num momento em que ainda vale bom dinheiro, faz parte dessa estratégia sensata. É um corte com a sua herança, mas é uma opção de vida. Só lendo as estrelas se pode garantir o presente e o futuro. Calouste Gulbenkian soube antecipar os novos tempos na sua época. A Fundação sabe que precisa de fazer o mesmo agora.

 

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