João Costa Pinto
João Costa Pinto 24 de setembro de 2018 às 22:11

A herança envenenada de Draghi - (I)

À medida que os bancos se retraem, sob pressão de um enquadramento cada vez mais agressivo, a liquidez - e com ela o risco - flui para segmentos de mercado menos regulados e potencialmente mais vulneráveis.

1. Aproxima-se o fim do mandato de Mario Draghi. O italiano que levou a acção do BCE para os seus limites estatutários - há quem considere que os ultrapassou - e que, com isso, travou o processo de desagregação da Zona Euro, perante a impassividade e a inépcia das elites políticas europeias. Vai deixar a quem lhe vier a suceder uma herança de complexidade sem precedentes: por um lado, os mercados vão ser tentados a testar a determinação do novo comando do BCE. Vai este manter vivo o "whatever it takes"(*) com que Draghi travou a fragmentação e provavelmente o colapso do euro? Por outro, o abandono gradual do programa de "quantitative easing"(**) vai dar origem a um movimento de correcção dos preços dos activos financeiros e de "normalização" da curva de rendimentos. Em particular, vai estar em causa o impacto desta correcção sobre a dívida e as condições de financiamento das economias mais alavancadas e mais frágeis; além disso, o caminho para a implantação de uma União Bancária plena encontra-se politicamente bloqueado, o que está a travar o avanço da integração dos mercados financeiros e a manter as economias devedoras numa situação de vulnerabilidade, expostas a eventuais choques sistémicos. Acresce que o movimento de retorno - mesmo que gradual - do BCE a uma política monetária convencional vai ter de ultrapassar dificuldades técnicas e operacionais, decorrentes do impacto da crise sobre o mecanismo tradicional de transmissão dos seus efeitos. Na verdade, os mercados interbancários - que no passado formavam o núcleo central de tal mecanismo - permanecem fortemente fragmentados a nível da Zona Euro. Com os bancos forçados a responder a um enquadramento regulamentar, prudencial e de mercado que os tem obrigado a recentrar o seu modelo de negócios e a reorganizar as suas operações. Processo com um impacto negativo no financiamento da actividade económica. Em particular, no financiamento do tecido produtivo - PME - na medida em que os bancos estão a privilegiar o crédito à habitação e ao consumo.

 

2. Sob o comando de Draghi, o BCE foi a âncora que estabilizou os mercados financeiros. Conseguiu-o à custa de injecções maciças de liquidez e de uma política de taxas de juro reais negativas que sacrifica os aforradores. Ao mesmo tempo que tem vindo a forçar um ajustamento do negócio bancário. Processo com consequências ainda difíceis de avaliar, dado que os mercados financeiros funcionam como um sistema de vasos comunicantes. À medida que os bancos se retraem, sob pressão de um enquadramento cada vez mais agressivo, a liquidez - e com ela o risco - flui para segmentos de mercado menos regulados e potencialmente mais vulneráveis. O que levanta uma dúvida sobre o futuro do mercado financeiro europeu. Estão a ser desenvolvidas fontes e instrumentos financeiros capazes de impulsionar a inovação e o investimento e mais resistentes a choques sistémicos? A resposta depende da interacção de dois tipos de factores: a acção pós-Draghi do BCE e o futuro da União Bancária. Questões para outro dia.

 

(*)"O que for necessário"

 

(**)"Aumentar os níveis de liquidez nos mercados"   

 

Economista

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