Pedro Fontes Falcão
Pedro Fontes Falcão 27 de fevereiro de 2018 às 20:20

A ignorância é boa?

Reduzir o tempo de algumas reuniões e ter menos reuniões inúteis contribuiria para um significativo aumento da produtividade e rentabilidade das organizações. Porque muitos não o fazem?

Tom Nichols, um politólogo americano, escreveu recentemente um livro sobre a ignorância e o irracional no discurso público americano.

 

Exemplos como campanhas antivacinação, a decisão a favor do Brexit de que muitos depois se arrependeram, ou a negação da existência de sida na África do Sul no final dos anos 90 mostram como os peritos são excluídos da análise sobre diferentes temas e em que a generalidade das pessoas se convence que sabe mais do que os estudiosos nas matérias. Obviamente, as pessoas não devem deixar de ter opiniões e também os peritos não são donos da verdade absoluta nem "deuses na terra". Mas há exemplos como estes, que chocam.

 

Em 1999, foi formulado o efeito Dunning-Kruger, que na prática refere que quanto menos competentes as pessoas são, maior a crença que tendem a ter na sua própria competência. Dos seus estudos, concluíram que a ignorância gera nas pessoas mais confiança do que gera o conhecimento, e que em relação a uma determinada competência, os incompetentes geralmente não vão reconhecer a sua própria falha, e além disso não vão reconhecer as competências reais noutras pessoas. Atualmente, a situação pode ser "agravada" pelo acesso a vastíssima informação na internet que ilude no "milagre do conhecimento para todos".

 

Nichols também refere que há um crescente narcisismo nos EUA e que cada vez mais as pessoas não aceitam estar em desvantagem numa conversa com outros, havendo um sentimento de insegurança que as leva a afirmar que sabem quando na realidade não sabem.

 

Será que estamos perante o lento definhar dos estudiosos e dos peritos?

 

Será também por isto que muitas reuniões em muitas empresas são uma perda de tempo, em que todos falam só para tentar mostrar que sabem alguma coisa? Uma boa definição da agenda da reunião, identificação de hora de início e de fim das reuniões, uma boa preparação, e assegurar que todos têm claro quais os objetivos e o "output" da reunião ajudaria a curar a "reunite" aguda de muitos? E a valorizar quem realmente tem conhecimento?

 

Reduzir o tempo de algumas reuniões e ter menos reuniões inúteis contribuiria para um significativo aumento da produtividade e rentabilidade das organizações. Porque muitos não o fazem?

 

Gestor e docente convidado do ISCTE-IUL

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

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