Nouriel Roubini
Preston Byrne
Nouriel Roubini | Preston Byrne 04 de abril de 2018 às 14:00

A ilusão da blockchain

Ao contrário dos protocolos de base, a "blockchain" é um protocolo "dinâmico", ou seja, armazena cada comunicação válida que se lhe tenha enviado. Isso obriga a desenhar as aplicações tendo em conta as limitações de hardware dos utilizadores e a necessidade de protecção contra o spam.

As previsões de que a bitcoin e outras criptomoedas acabarão por fracassar evocam uma defensa mais ampla da tecnologia "blockchain"* que lhe está subjacente. Sim, o argumento é o de que mais de metade das "ofertas iniciais de moeda" realizadas até agora já fracassou, e a maioria das mais de 1.500 criptomoedas existentes seguirá o mesmo caminho, mas a "blockchain" irá revolucionar as transacções financeiras e as interacções humanas em geral.

 

Na realidade, a "blockchain" é uma das tecnologias mais exageradamente publicitadas de sempre. Para começar, as "blockchains" são menos eficientes do que as bases de dados existentes. Quando alguém diz que está a executar algo "numa blockchain", o que normalmente quer dizer é que está a usar parte de uma aplicação de software que é replicada em muitos outros dispositivos.

 

O necessário espaço de armazenamento e potência computacional é substancialmente maior, e a latência também, do que no caso de uma aplicação centralizada. As "blockchains" que incorporam tecnologias de "provas de posse" ("proof-of-stake") ou "provas de conhecimento zero"/"protocolos de conhecimento nulo" ("zero-knowledge") obrigam a que todas as transacções sejam verificadas criptograficamente, o que as torna mais lentas.

 

As "blockchains" que recorrem às tecnologias "provas de trabalho" ("proof-of-work"), tal como muitas populares criptomoedas fazem, suscitam um outro problema: elas precisam de elevados volumes de energia bruta para se alimentarem. Isto explica o porquê de as operações de "mineração" de bitcoins na Islândia estarem a caminho de consumir mais energia este ano do que todos os lares islandeses em agregado.

 

As "blockchains" podem fazer sentido nos casos em que a relação entre velocidade e verificação realmente o justifica, mas não é esse o argumento com que costuma publicitar-se esta tecnologia. As propostas de investimento na "blockchain" repetem a promessa exagerada de que se trata de uma tecnologia capaz de substituir indústrias inteiras (por exemplo, a computação na nuvem) e não reconhecem as suas limitações óbvias.

 

Há muitos esquemas que assentam na afirmação de que a "blockchain" é um "computador mundial" distribuído e universal. Mas essa afirmação pressupõe que os bancos, que já usam sistemas eficientes para processarem milhões de transacções por dia, têm motivos para migrar para uma única criptomoeda, notoriamente mais lenta e menos eficiente, o que contradiz tudo o que sabemos sobre o uso de software na indústria financeira.

 

As instituições financeiras, em particular as que procedem a negociações algorítmicas, precisam de um processamento de transacções veloz e eficiente. Uma única "blockchain" global distribuída, como a Ethereum, nunca lhes seria útil.

 

Outro falso pressuposto é o de que a "blockchain" representa algo semelhante a um novo protocolo universal, como o TCP-IP ou o HTML foram para a Internet. Tais alegações implicam que esta ou aquela "blockchain" será a base da maioria das transacções e comunicações do mundo no futuro. Uma vez mais, basta pensar em como funciona na realidade esta tecnologia para ver que isso não faz sentido. Em concreto, a própria "blockchain" depende de protocolos como o TCP-IP, pelo que não está claro de que forma poderá funcionar como substituta dos mesmos.

 

Além disso, ao contrário dos protocolos de base, a "blockchain" é um protocolo "dinâmico", ou seja, armazena cada comunicação válida que se lhe tenha enviado. Isso obriga a desenhar as aplicações tendo em conta as limitações de hardware dos utilizadores e a necessidade de protecção contra o spam. Isto explica por que motivo o Bitcoin Core, o cliente de software para bitcoins, processa apenas entre cinco e sete transacções por segundo – quando a Visa, por exemplo, processa de forma segura 25.000 transacções por segundo.

 

Assim como não é possível registar todas as transacções do mundo numa única base de dados centralizada, também isso não será possível num único banco de dados distribuído. Com efeito, os problemas de escala na tecnologia "blockchain" continuam por solucionar e é provável que assim permaneçam durante muito tempo.

 

Se bem que possamos dizer convictamente que a "blockchain" não destronará o TCP-IP, pode acontecer que a dada altura uma componente específica da tecnologia (como as linguagens de contrato inteligente Tezos ou Etherum) se converta no padrão para determinadas aplicações – tal como o Enterprise Linux e o Windows o foram para os sistemas operativos dos computadores pessoais. Mas apostar numa "moeda" em particular, como muitos investidores actualmente fazem, não é o mesmo que apostar na adopção de um "protocolo" mais geral.

 

A experiência com o uso do software de código aberto não dá muitos motivos para pensar que o valor empresarial de determinadas aplicações de "blockchain" provirá directamente de uma única ou umas quantas moedas.

 

Um terceiro pressuposto falso diz respeito utopia da "desintermediação" [não dependentes de terceiros] que a "blockchain" supostamente criará ao eliminar a necessidade de instituições financeiras ou outros intermediários fiáveis. Isto é absurdo, por uma razão muito simples: hoje em dia, qualquer contrato financeiro pode ser modificado ou deliberadamente incumprido pelas partes participantes. Automatizar esta possibilidade com cláusulas rígidas de "desintermediação" é algo comercialmente inviável, sobretudo porque obrigaria a que todos os acordos financeiros fossem garantidos a 100% em dinheiro, o que é uma loucura do ponto de vista do custo de capital.

 

Além disso, muitas aplicações possivelmente adequadas da "blockchain" em matéria de finanças – como na titularização ou supervisão de cadeias de fornecimento – continuarão a precisar de intermediários, porque poderão sempre surgir imprevistos que tornem necessário o exercício da discricionariedade. A coisa mais importante que a "blockchain" fará numa situação dessas é assegurar que todas as partes envolvidas numa transacção estão de acordo relativamente ao estado da referida transacção e suas obrigações.

 

Já é hora de acabar com este exagero. A bitcoin é um dinossauro lento e energeticamente ineficiente que nunca poderá processar transacções tão velozmente e a tão baixo custo como uma folha de cálculo do Excel. Os planos da Etherum para um sistema de autenticação inseguro mediante prova de posse irão torná-lo vulnerável à manipulação de participantes influentes. E a tecnologia da Ripple para transferências interbancárias internacionais num instante ficará obsoleta devido ao SWIFT, um consórcio "não-blockchain" que as principais instituições financeiras do mundo já usam. Do mesmo modo, já há sistemas centralizados de pagamento electrónico com custos de transacção praticamente nulos – Faster Payments, AliPay, WeChat Pay, Venmo, Paypal, Square – que têm milhares de milhões de utilizadores em todo o mundo.

 

A actual "criptomania" não é diferente da mania dos caminhos-de-ferro no alvorecer da revolução industrial em meados do século XIX. Por si só, a tecnologia "blockchain" pouco tem de revolucionário. Mas, em conjunto com a automação segura e remota dos processos financeiros e mecânicos, pode vir a ter amplas derivações.

 

Em última análise, o uso da "blockchain" irá limitar-se a aplicações específicas, bem definidas e complexas que exijam mais transparência e resistência à adulteração do que velocidade – como é o caso da comunicação com veículos de condução autónoma ou drones. No que diz respeito à maioria das criptomoedas, estas não são muito diferentes das acções de empresas ferroviárias na década de 1840, que quebraram quando a bolha ferroviária – como acontece como a maioria das bolhas – estoirou.

 

Nouriel Roubini é professor de Economia na Stern School of Business, da Universidade de Nova Iorque, e CEO da Roubini Macro Associates. Preston Byrne é professor assistente do Adam Smith Institute e membro da Tomram Consulting.

 

Copyright: Project Syndicate, 2018.
www.project-syndicate.org

Tradução: Carla Pedro

 

* "Blockchain", na tradução literal, é uma ‘corrente de blocos’ que é actualizada sempre que se realiza uma nova transacção – e todos os sistemas ligados à rede têm acesso a essa rede, de forma a validar um item e impedir que ele seja vendido duas ou mais vezes. Esta tecnologia é, em suma, um sistema que permite a acumulação descentralizada de moedas, com uma série de chaves de segurança.

 

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