Adolfo Mesquita Nunes
Adolfo Mesquita Nunes 19 de fevereiro de 2018 às 22:23

A liberdade e a vida

A vida é-nos oferecida, sendo por isso um dom, uma dádiva. Nenhum de nós pediu para nascer, nenhum de nós reivindicou o seu nascimento, todos surgimos apesar de nós. Nesse sentido, a vida deve-nos, nesse sopro inicial, absolutamente nada.

Numa recente entrevista, afirmei que o valor da liberdade era, para mim, anterior ao próprio valor da vida. Para de alguma forma ilustrar esse pensamento, recorri a uma ideia forte que me ficou do livro de Dino Buzatti, "O Grande Retrato": o que seria da vida se não tivéssemos a possibilidade do suicídio?

 

Porque recebi dezenas de mensagens sobre esta ideia, quase todas revelando perplexidade e incompreensão, gostaria de densificar o meu ponto, clarificando-o.

 

A vida é-nos oferecida, sendo por isso um dom, uma dádiva. Nenhum de nós pediu para nascer, nenhum de nós reivindicou o seu nascimento, todos surgimos apesar de nós. Nesse sentido, a vida deve-nos, nesse sopro inicial, absolutamente nada.

 

Essa circunstância impositiva da vida não lhe retira valor, em absoluto, nem atenua ou empalidece o seu carácter miraculoso, maravilhoso; mas obriga, isso sim, a que encontremos o momento, o valor, em que tomamos a vida como nossa, em que a reconhecemos e aceitamos e vivemos, em que a celebramos como valor porque a queremos.

 

É aí que a possibilidade do suicídio assume um papel estruturante, porque é a rejeição do suicídio que marca a adesão à vida, a nossa escolha. Recupero a frase exacta de "O Grande Retrato": "A vida ser-nos-ia insuportável, mesmo nas condições mais felizes, se nos estivesse vedada a possibilidade do suicídio."

 

O que Endriade, a personagem que profere a frase, pretende provocar não é um qualquer culto do suicídio, uma qualquer desvalorização do supremo valor da existência, mas antes uma celebração da vida como uma escolha livre, nossa, que tomamos em mão. Sem essa escolha, a vida era uma coação, um fardo, uma obrigação, por mais maravilhosa que pudesse ser. Sem essa escolha, isso sim, a vida como que se desqualificaria, transformada em imposição, e nós em prisioneiros, sujeitos errantes e passivos. A vida não é isso, é escolha diária. 

 

É a rejeição do suicídio, a escolha livre pela vida, que precisamente a exalta. Daí a radical importância da liberdade, na medida em que funciona como valor qualificador, exaltador da vida e das escolhas que fazemos nela. É por isso que o considero anterior à vida: sem ele, a vida, enquanto imposição, seria algo bem distinto do que esta extraordinária caminhada de permanentes escolhas. É assim que a liberdade surge como eixo central, primacial.

 

Não há neste pensamento uma qualquer adesão à eutanásia, como muitos me perguntaram.

 

A eutanásia não se confunde com o suicídio. O suicídio poderá constituir um derradeiro gesto de liberdade, uma pessoa e a vida, frente a frente, e uma escolha e um gesto individuais. A eutanásia é coisa bem distinta e não se funda na liberdade. É que se o argumento a favor da eutanásia é o da liberdade, o da liberdade de decidir como e quando morrer, por que razão se reserva a eutanásia para os momentos terminais, para o momento em que o sofrimento se torna insuportável e não sempre e quando a liberdade o ditar, quando cada um achar que quer terminar com a vida? Se a eutanásia corresponde ao direito de cada um antecipar a sua morte, por que razão se exige um dever de alguém o cumprir por nós? Se é uma liberdade, porque é que implica o dever de um sistema se organizar para cumprir essa vontade, por que razão se faz depender a eutanásia de uma mediação médica? É por isso que rejeito em absoluto esta identificação da eutanásia com a liberdade, e nada naquela entrevista permite retirar uma qualquer adesão às propostas atualmente em discussão sobre eutanásia.

 

Naquela entrevista quis apenas dizer que a liberdade é o valor que qualifica todos os outros, o que talvez constitua uma afirmação pouco comum, mas em mim essencial.

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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