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Leonel Moura leonel.moura@mail.telepac.pt 12 de Fevereiro de 2016 às 00:01

A lição de Bernie Sanders

Como é que um homem com 74 anos, voz gasta e até um pouco curvado consegue empolgar tantos americanos e sobretudo ter a maioria dos jovens do seu lado?

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Como é que alguém que abertamente se diz socialista, no país do capitalismo e do anticomunismo, consegue ter o apoio da classe trabalhadora? Não será certamente pelo físico nem pela inscrição ideológica. Não. É pelas palavras, pelas ideias, pela coragem de atacar o sistema corrupto que mina o país e, na verdade, o mundo inteiro. Bernie demoniza Wall Street, ou seja, o sistema financeiro. E faz bem. Porque se trata de um sistema predador que opera para seu benefício exclusivo com pouco ou nenhum benefício para a sociedade e gera, com demasiada frequência, enormes catástrofes que atingem indivíduos, famílias, países, continentes. Os últimos anos têm sido férteis no tipo de instabilidade que este sistema provoca, sem que ninguém, "vide" classe política, faça algo de significativo.

 

Por isso Bernie aponta à cabeça. Não atira para o lado, como tem sido usual nos democratas americanos e o é ainda mais nos políticos europeus. Não propõe pequenas reformas que nada mudam. Coloca no topo das suas propostas o desmantelamento dos grandes bancos. Tidos por "too big to fail" (grandes demais para falhar), quando falham, e falham, é o Estado que tem de os socorrer com o dinheiro dos contribuintes. À nossa escala viu-se sobretudo no caso do BES, mas também no BPN, Banif, etc...

 

Outra das propostas de Bernie, interessante para Portugal, prende-se com as agências de "rating" que ele diz serem "raposas a vigiar o galinheiro". Quando em 2008 a Standard & Poor's dava, no próprio mês da sua falência, classificação "A" ao Lehman Brothers, ficou mais do que evidente que estas agências não merecem qualquer crédito. Aliás têm pouco de científico, visam o maior lucro, nada mais. Não se pode permitir que tenham o poder de destruir economias inteiras. Por isso, Bernie propõe que sejam substituídas por entidades públicas.

 

Mas a proposta que certamente mais assusta Wall Street é a da taxação das transações financeiras. A situação é intolerável. Toda a gente paga impostos menos quem especula na bolsa. Na Europa o panorama é idêntico. Os políticos andam a discutir o tema há anos, só para encontrarem a cada passo uma desculpa para não o implementarem eficazmente. Porque será?

 

Em suma, Bernie Sanders tem sido uma agradável surpresa. Recorda, na linha de Karl Marx, que os Estados Unidos são o lugar do planeta onde uma verdadeira revolução, ou seja, uma mudança radical de sistema, pode acontecer. Pode não ser para já, mas o rumo, de tão evidente, fica traçado. A maioria dos 99% que pagam a fortuna de 1% percebe isto perfeitamente.

 

Bernie é também uma lição para a situação portuguesa. A esquerda conquistou o Parlamento, mas ainda não ganhou o debate político no país. Com a direita ressabiada, incapaz de passar da mesquinhez reativa, passamos o dia a debater irrelevâncias, diz que disse, manobras e puras mentiras. Trata-se de um jogo sem qualquer interesse e ainda menor alcance.

 

A esquerda tem de apresentar as suas causas. Em conjunto ou em separado. As razoáveis e as radicais. Não foi de propósito, o que revela algum amadorismo, mas a apresentação do tema da eutanásia foi muito positivo. Colocou o país a discutir algo que realmente importa e não as intermináveis, aborrecidas e frequentemente manipuladas contas do orçamento. O Estado já se mete em demasia na minha vida, não queira agora também decidir quando posso morrer. Mas há muitas outras causas. Desde logo, na linha de Bernie, as que dizem respeito ao sistema financeiro. Não se pode continuar a aceitar que sistematicamente empresas e bancos fiquem com os lucros e o Estado com os prejuízos. Não se pode continuar a falar de livre iniciativa, poder absoluto dos acionistas, total autonomia das administrações privadas e depois perceber que empresas e bancos são altamente subsidiadas pelo dinheiro dos contribuintes, pagam muito menos impostos do que toda a gente, praticam repetidamente atos ilícitos com a maior das impunidades. Isto não pode continuar. A esquerda tem de ganhar foco. Ir ao que interessa e deixar a direita a falar sozinha.

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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