João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 30 de janeiro de 2018 às 21:12

A lista do Kremlin à mira da estagnação

Pouco ou nada interessa a Trump ampliar e agravar as sanções impostas à Rússia e a Putin convém evitar uma escalada de represálias, mas, em ano eleitoral, o Congresso de Washington pode mostrar-se tentado a aumentar a pressão sobre o Kremlin.

Na lista de oligarcas bilionários e agentes políticos proeminentes divulgada pelo Departamento do Tesouro, por imposição do Congresso devido a alegadas interferências russas na eleição presidencial de 2016, prima pela ausência a governadora do Banco Central de Moscovo: a muito influente e altamente competente Elvira Nabiullina.

 

Só ela conta muito, mas Aleksei Kudrin - ministro das Finanças entre 2000 e 2011 e presentemente assessor de Putin - ou Anatoly Chubais - um dos principais responsáveis pelas privatizações da década de 1990 e actual presidente da empresa estatal de nanotecnologias Rusnano - tão-pouco constam entre os 210 nomes referenciados.

 

Da consulta feita pelo Tesouro ao director de Inteligência Nacional e à Secretaria de Estado resultou, contudo, uma listagem de ministros - incluindo o chefe do governo e ex-presidente Dmitri Medvedev ou o diplomata Serguei Lavrov -, assessores, presidentes de empresas estatais, além de responsáveis por serviços de informação e segurança, num total de 114 decisores e administradores políticos de relevo.

 

O documento agrega, ainda, 96 oligarcas, definidos pela posse de activos iguais ou superiores a mil milhões de dólares, colhendo explicitamente dados na lista da Forbes "Os 200 empresários mais ricos da Rússia - 2017".

 

São, assim, nomeados empresários sem ligações políticas a Putin, caso de Serguei Galitski, com fortuna feita no retalho alimentar, ou Yuri Shefller, magnata das bebidas espirituosas com anos de litígio contra as autoridades russas sobre direitos de marca, ignorando-se homens de mão do Kremlin em recentes aquisições de media como Grigory Beriozkin.

 

A incongruente lista resulta, necessariamente, em potencial prejuízo para "imagem e prestígio" dos referenciados, como advertiu um deles, Yuri Peskov, porta-voz do Kremlin, mas, o próprio Presidente Putin exclui retaliações ante um "acto inamistoso".

 

Além de pessoas e entidades já sancionadas por Washington na área de defesa e informações com resultados alegadamente positivos, o relatório exclui actos punitivos a curto prazo - de emissão de vistos a arresto de activos -, tendo o Tesouro salvaguardado aquisições de obrigações emitidas pelo Estado russo.       

 

A parte classificada do relatório divulgado terça-feira poderá conter dados para justificar posteriores sanções a pessoas, empresas ou instituições russas, mas, no imediato, a administração Trump limitou-se a cumprir as formalidades necessárias decorrentes da decisão tomada pelo Congresso este Verão. 

 

Em Março, Vladimir Putin será reeleito Presidente, tendo presente que a economia russa continua dependente da exportação de hidrocarbonetos, tendendo à estagnação, e sem sinal de aventar qualquer coisa de novo. 

 

Putin, chegado ao poder em 2000, tomba para o lado lameiro de Leonid Brejnev, líder soviético que se arrastou de 1964 a 1982 e deixou em memória uma era de estagnação.

 

Por artes diversas e acasos de circunstância, Putin vê-se constrangido, em Março, a mais um acto de legitimação eleitoral.

 

A lista do Kremlin serve para efeitos de propaganda, mas nem Washington ou Moscovo conseguem presumir ao certo ganhos relevantes deste constrangimento e listagem.

 

Jornalista

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