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João Quadros - Argumentista 12 de Dezembro de 2014 às 09:46

A mancha do leopardo

Ainda o dia estava a raiar, já Salgado entrava, pela porta do PM, para a Comissão de Inquérito ao BES. Foram 10 horas a responder a perguntas de deputados

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Ainda o dia estava a raiar, já Salgado entrava, pela porta do PM, para a Comissão de Inquérito ao BES. Foram 10 horas a responder a perguntas de deputados. Eu estava esgotado só de o ouvir. Tenho que reconhecer que o homem tem uma capacidade de trabalho impressionante. Fico a saber que nunca teria aptidão para falir um banco. Sou demasiado preguiçoso.


Salgado, ao longo do inquérito, salientou sempre a importância da estabilidade da família. Diz o ex-DDT que trabalhava todos os fins-de-semana com sacrifício da família - isso é verdade, andava a dar-lhes cabo do dinheiro todo. Salgado acaba a atribuir a culpa da queda do banco à crise, ao Banco de Portugal e ao Governo. No fundo, Salgado confirma a versão de Cavaco de que o BES estava sólido. Aliás, o nosso PR aproveitou a ida ao México para dizer que as suas afirmações foram um mês depois do aumento de capital, mas não diz que foram uma semana antes da falência. A lógica do nosso PR é dizer que quem comprou já tinha ido ao aumento de capital, portanto, já tinham sido enganados uma vez, que se lixem.


Após o almoço, o ex-presidente do BES regressou atrás no tempo e contou a história da junção do banco da sua família com a família de Pedro Queirós Pereira, descrevendo-a como a mais fácil de sempre, porque eram paredes meias e foi só deitar uma parede abaixo e fez-se a fusão dos bancos. Isso é que eram tempos para o Carlos Costa, era só ver se não passavam canos e pronto. Acho que ele era capaz.


Quanto ao famoso retirar de idoneidade e afastamento do banco, Salgado diz que bastava Carlos Costa fazer um sinal e ele saía, contrariando a versão do governador do BdP, que diz que o enxotou dentro do que a lei permitia. É o chamado "lost in translation". Acontece muito a quem leva recados.


Mais tarde, Ricardo Salgado diria que nunca quis ser o Dono Disto Tudo, até porque isto tudo não é nada de especial, como se pode comprovar pelo que os chineses têm pago. O ex-Dono Disto Tudo acaba a confessar que não se arrepende de nada e que faria tudo de novo, tirando os submarinos; e uma operação a um quisto sebáceo. Eu acho que isto é um estratagema mental que ele arranjou para não reconhecer que três milhões numa caução é dinheiro muito mal gasto.


Também é curioso ver o papel dos deputados do PSD nesta Comissão. Frases como "eu não quero saber da história da família" e a atitude. São os deputados do partido do Governo quem fala com mais arrogância e falta de educação para com Salgado. Há ali um - estou-me nas tintas para ti, seu rico, ex-poderoso. Estão tão em modo revolucionário - homem novo, país novo, morte aos donos do país - que já não conseguem, ou não querem esconder. Desde o Pontal que é o camarada Passos que comanda as suas acções. Salgado estava claramente a pensar: "quando eu vim do Brasil eram os comunas os mal-educados."


Termino com o provérbio chinês com que Salgado iniciou o inquérito: "um leopardo quando morre deixa a sua pele. Um homem quando morre deixa a sua reputação." Lamentavelmente, neste caso, a reputação do Salgado tem mais manchas que a pele do leopardo. A reputação do Salgado ficava espectacular em frente a uma lareira.

 

 

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TOP 5
Comporta


1 O Supremo Tribunal de Justiça recebeu um terceiro pedido de "habeas corpus" destinado à libertação de José Sócrates - se você gosta de pedir "habeas corpus", também pode gostar de: imolar-se pelo fogo, raspadinhas, ir à Loja do Cidadão, programa conselho fiscal da TSF.


2 Cavaco afirma que matérias tratadas com Salgado "são reservadas" - só as afirmações sobre a solidez do BES são públicas.


3 The Ebola Fighters have been named the TIME Person of the Year - Tenho de ouvir mais música, já não conheço estas novas bandas.


4 Residentes em Portugal isentos de pagar um euro quando aterrarem no Aeroporto de Lisboa - é para compensar levar com as trombas dos taxistas do aeroporto quando percebem que o cliente é português.


5 Banco de Portugal revê em baixa crescimento da economia portuguesa - O BdP está a querer tirar a idoneidade ao Governo.

 

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