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Edson Athayde 03 de Março de 2020 às 19:10

A morte coreografada

A morte por doença na ficção precisar ser demorada, encenada, coreografada. O que revela muito da alma humana: o sofrimento alheio costuma ser um espetáculo com bilhetes esgotados.

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“Antigamente, se morria. / 1907, digamos, aquilo sim / é que era morrer. / Morria gente todo dia, / e morria com muito prazer, / já que todo mundo sabia / que o Juízo, afinal, viria / e todo o mundo ia renascer.”*

Como disse o meu Tio Olavo: “O corona anda a espalhar-se como um vírus.” E este facto traz-nos algumas narrativas perdidas.

A mais veiculada neste momento é o relato sobre a Gripe Espanhola, que explodiu em 1918 e matou algo entre 20 e 100 milhões de pessoas. Incrível como um evento tão marcante na saúde pública mundial tenha sido esquecido por tanto tempo. Mas, suspeito, saberemos mais sobre ele. De certeza que há neste momento vários guiões em Hollywood em desenvolvimento a recuperar a Gripe Espanhola e as suas consequências.

Mas, do ponto de vista dramatúrgico, a Gripe Espanhola tinha um defeito. Matava muito rápido e matava muito feio (não há nada de bonito, nem poético em espirrar ou vomitar sangue). A morte por doença na ficção precisar ser demorada, encenada, coreografada. O que revela muito da alma humana: o sofrimento alheio costuma ser um espetáculo com bilhetes esgotados.

“Morria-se praticamente de tudo. / De doença, de parto, de tosse. / E ainda se morria de amor, / como se amar morte fosse. / Pra morrer, bastava um susto, / um lenço no vento, um suspiro e pronto, / lá se ia nosso defunto / para a terra dos pés juntos. / Dia de anos, casamento, batizado, / morrer era um tipo de festa, / uma das coisas da vida, / como ser ou não ser convidado.”*

Por falar na morte, melhor (ou pior) do que ver um indivíduo morrer só o desaparecimento de toda a humanidade. De Nostradamus a Michael Bay, o apocalipse nunca saiu de moda. As bestas bíblicas ganham novas máscaras, mas andam sempre por aí a assustar.

O corona é apenas mais uma demonstração do que tememos e esperamos: o fim anunciado. Ora achamos que será por bombas, ora por terramotos ou inundações. Por doença só conseguimos acreditar em uma de cada vez e de tempos em tempos. Como se a natureza fosse incapaz de produzir dois vírus assassinos em simultâneo. Ou se as doenças mortais anteriores perdessem interesse e eficácia.

“Tinha coisas que matavam na certa. / Pepino com leite, vento encanado, / praga de velha e amor mal curado. / Tinha coisas que têm que morrer, / tinha coisas que têm que matar. / A honra, a terra e o sangue / mandou muita gente praquele lugar. / Que mais podia um velho fazer, / nos idos de 1916, / a não ser pegar pneumonia, / e virar fotografia?”*

Mais uma consequência da atual epidemia: o impacto das notícias que mostram-se confirmadas.

Explico: até há pouco tempo era normal acreditarmos nas notícias, como também acreditávamos na história, na ciência e no bom senso. Tudo isto mudou. Cada um pode agora escolher o passado histórico que melhor convém. O saber científico tornou-se opcional. E se fulano decide fabricar um foguete em casa, entrar nele e explodir-se na tentativa de provar que a lei da gravidade não existe, bem, isso é com a pessoa, só demonstra que é alguém com uma opinião bem vincada (nem pensar em ingressar o cidadão num manicómio).

 

O corona é apenas mais uma demonstração do que tememos e esperamos: o fim anunciado.



Assim, quando os jornais relatam que um novo vírus está a se propagar e a coisa realmente acontece, as pessoas ficam muito assustadas. No fundo, acham estranho. Era para ser mais uma invenção, teoria da conspiração, falso apocalipse, exagero da imprensa para gerar “clickbait”. O que leva a pergunta: depois de tanta “fake news” será que não dava para também a notícia da nossa morte certa ser um pouco exagerada?

“Hoje, a morte está difícil./ Tem recursos, tem asilos, tem remédios./ Agora, a morte tem limites. / E, em caso de necessidade,/ a ciência da eternidade / inventou a criônica. / Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.”*

*Poema “O que passou, passou”, de Paulo Leminski.

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