Adolfo Mesquita Nunes
Adolfo Mesquita Nunes 16 de abril de 2018 às 19:02

A nova tese da esquerda rumo às eleições 

O caminho de PSD e CDS nunca passou por fazer recair o aumento da carga fiscal nos impostos cegos ao rendimento, que prejudicam desde logo aqueles que, por falta de recursos, já nem impostos sobre rendimento pagam.

Anda para aí uma tese muito popular, a de que este Governo conseguiu, afinal, colocar em prática o programa de Passos e Portas; que fez, com outro engenho, aquilo que PSD e CDS teriam feito se tivessem governado; que chegou ao equilíbrio das contas e a uma substancial redução da despesa, tudo o que Passos e Portas sonharam.

 

É uma tese popular porque é muito útil à esquerda.

 

Ao PS, desde logo, porque o recentra. Coloca-o no centro-esquerda, roubando votos ao PSD, criando a ideia de que, mesmo com os acordos à esquerda, o PS governou como sempre tinha governado. Quando Centeno foi para o Eurogrupo, aliás, escrevi aqui que o PS aproveitaria a eleição para iniciar o caminho rumo ao centro, para ganhar as eleições, para fazer esquecer o que não fez por causa dos seus parceiros. O défice zero que Costa anunciará como previsão na altura das eleições só reforçará essa linha. Sim, é para mim evidente que Costa vai prever um défice zero umas semanas antes do começo da campanha, condicionando-a, e aproveitando esta tese. 

 

Mas esta tese interessa também ao Bloco e ao PCP, porque lhes oferece espaço eleitoral. Se o PS se recentra, se afinal os socialistas fizeram, talvez com menos dor, o que a direita se preparava para fazer, mais espaço fica para comunistas e trotskistas. Vão poder dizer que sem eles a austeridade volta mesmo, que é preciso garantir a eleição de quem puxa os socialistas para a esquerda.

 

É por interessar a tanta gente à esquerda que essa tese começa a fazer caminho, todos em linha a jurar que sim, que PSD e CDS teriam feito o mesmo, que estão furiosos porque o não conseguiram, que afinal Costa tinha razão na sua habilidade e, cereja no topo do bolo, que conseguiu impedir que PCP e Bloco estragassem tudo.

 

Sucede que essa tese não é verdadeira, não tem fundamento, e foi criada para permitir uma narrativa recentradora do PS e, mais do que isso, para estabelecer uma TINA ("there is no alternative") no espaço do centro e da direita, uma espécie de convite ao voto no PS.

 

E porque não é verdadeira?

 

O caminho de PSD e CDS nunca passou por fazer recair a totalidade dos cortes na despesa nos serviços públicos, nunca apostando, como este governo, que é melhor ter funcionários satisfeitos e utentes com piores serviços do que o inverso. A ideia foi sempre a de distribuir tão proporcionalmente quanto possível esses cortes, entre funcionários e serviços, para evitar o que hoje sucede, precisamente, a absoluta degradação dos serviços públicos.

 

O caminho de PSD e CDS nunca passou por fazer recair o aumento da carga fiscal nos impostos cegos ao rendimento, que prejudicam desde logo aqueles que, por falta de recursos, já nem impostos sobre rendimento pagam, nunca apostando, como este governo, que é melhor ter a classe média a receber mais sem se aperceber de que está a pagar mais em impostos. A ideia foi sempre a de encarar os aumentos da carga fiscal, tão provisórios quanto possível, numa perspetiva de progressividade.

 

O caminho de PSD e CDS nunca passou por aproveitar a sombra da bananeira dos juros do BCE para não fazer uma única reforma no nosso modelo económico e de competitividade, nunca apostando, como este governo, que é melhor ter a extrema-esquerda agradada com a ausência de reformas do que fazer o necessário para garantir que não voltamos a cair noutra. A ideia foi sempre a de querer resolver os nossos problemas estruturais, não apenas deixarmo-nos estar até à próxima tempestade. 

 

Este caminho alternativo continua atual, porque até Centeno assume que está tudo preso por arames. E esse caminho tem de ser explicado uma e outra vez, porque essa encantatória tese, inventada pela esquerda para condicionar as eleições, veio para ficar. Mas isso não faz dela verdadeira, e a verdade tem a sua força.

 

Advogado

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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