João Quadros
João Quadros 27 de novembro de 2015 às 10:03

A pinhata da nação

Finalmente, temos Governo. Mais de meia centena de dias depois das eleições, Aníbal lá se convenceu a deixar de fazer birras.

Finalmente, temos Governo. Mais de meia centena de dias depois das eleições, Aníbal lá se convenceu a deixar de fazer birras. Foram necessárias mais de 12.000 horas e 31 audiências com pessoas que, suponho, valem um voto, para o quase ex-PR "indicar" Costa para PM. Acho que isto de indicar, em vez de indigitar, ficou-lhe dos tempos dos pedidos à PIDE.

Depois de tantas audiências, a minha primeira conclusão foi a de que Aníbal não conseguia estar sozinho com a Maria e inventava estas reuniões para estar acompanhado. A outra hipótese era estar a ver se se livra das bolachas e compotas que tem lá em Belém e que lhe convém despachar porque já está de saída. A terceira hipótese mais plausível é a de que Aníbal só quer enxovalhar e mostrar quem manda. É o maluco/chato das reuniões de condóminos.

Vamos lá recordar, que dizem que é viver. Primeiro, Aníbal indigita o Governo que sabe que vai ser chumbado no primeiro dia. Depois exige garantias a um Governo com o apoio parlamentar da maioria, e recordemos, se ainda formos capazes, que este era o mesmo Aníbal que não mandava orçamentos anticonstitucionais para fiscalização preventiva para não atrasar os orçamentos. A verdade é que o dia mais bem conseguido de Cavaco, desde as eleições, foi o 5 de Outubro.

Resumindo, Cavaco é o novo Júlio Isidro. Costa vai ter de ir buscar um presunto no cimo de um poste ensebado se quiser ser PM. Cavaco age como se fosse o sultão da nação. Só dá a filha em casamento depois de o noivo cumprir umas quantas missões. Costa só pode ser PM se for pelo mundo e lhe trouxer um presépio feito por virgens ruivas com as mais raras conchas do universo, se decapar um quiosque só com um garfo e se for capaz de comer dois linces da Malcata com uma palhinha. Cavaco só aceita Governo que lhe satisfaça os desejos de grávido: quer iscas com leite creme.

Depois da longa odisseia para nomear Costa, Aníbal ainda fez mais seis pedidos, entre eles a garantia da estabilidade do sistema financeiro. É como se Costa fosse demasiado grande para cair. A minha questão é: como é que o Cavaco consegue topar se há estabilidade do sistema financeiro se garantiu que o BES estava sólido? Cavaco é parte da instabilidade do sistema financeiro, seja através do BPN, patrocinado por si, ou de análises sobre a solidez do BES. Mas que tipo de garantias quer o PR em relação ao sistema financeiro? Essa função não é do governador do Banco de Portugal? Será que o PR retirou a idoneidade a Carlos Costa? No fundo, isto é apenas Cavaco a confessar que, se calhar, o sistema financeiro está por um fio.

Bem sei que Costa é um homem de diálogos, seja cara a cara, por carta ou até por SMS, mas eu nunca teria respondido às exigências de Aníbal. Da ideia que tenho de Cavaco, eu enviava o envelope mas, em vez da carta, metia uma nota de cem euros lá dentro. Acho que ao meio-dia, do dia seguinte, já estava a coisa resolvida.

Moral da história: Aníbal termina a sua carreira política atacado por tudo e todos. Até Marcelo já perdeu a paciência para o PR e disse que, quanto à estabilidade do sistema financeiro, considerava tal exigência "estranha e insólita". Todos lhe batem. Ao longo desta presidência, Cavaco transformou-se na pinhata da nação. Já vai tarde.

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Top5
Exigências

1 Terroristas de Paris podiam estar sob efeito de Captagon, uma droga que inibe a dor e a sensação de medo - devia ser possível anular o atentado porque estavam "dopados". Não conta este. É o Daesh e a Volta à França: perdeu-se a carolice.

2 Macedo não o fez apenas por amizade mas porque respondia a "uma parceria informal de natureza lucrativa" - amigos, amigos, negócios à parte. Loura, bumbum de sonho e seios verdadeiros, faz "parcerias informais de natureza lucrativa" em local a combinar.

3 Alegria nas galerias da Assembleia após A votação da adopção de crianças por casais homossexuais - realmente, a tradição já não é o que era, até há "alegria nas galerias da Assembleia".

4 "Instituições bancárias ficam com o poder de renacionalizar a Transportadora Aérea Portuguesa" - afinal, a privatização da TAP tem bilhete de ida e volta.

5 Bashar Al-Assad quer apresentar-se como indispensável na luta contra o Estado Islâmico - Bashar Al-Assad gaseava populações, só que gosta da nossa maneira de viver e adora Paris - até tem lá casa. É o chamado civilizado.

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