Miguel Pina e Cunha
Miguel Pina e Cunha 03 de maio de 2017 às 19:51

A política do estereótipo e da ofensa

A psicologia social revelou há muito o poder dos estereótipos: ao estereotipar ganhamos eficiência, pois assumimos um pacote de informação sobre o alvo.

O ganho, claro, vem com um preço: o estereótipo contém inúmeras imperfeições, nomeadamente porque junta no mesmo saco farinhas muito diferentes. Os estereótipos são um processo humano e são usados com abundância. Por exemplo, todos "sabemos" que os alemães são obcecados com regras e que as seguem mesmo que sejam estúpidas: uma regra estúpida não deixa de ser uma regra. Todos "sabemos" que os austríacos são como os alemães. Mas basta conhecer um austríaco para saber que o nosso conhecimento não é afinal tão acertado. E, dizem ambos, quem tem obsessão com as regras são os suíços. Ou seja, achamos que sabemos mais ao agrupar, mas os agrupamentos fazem-nos saber menos do que pensamos que sabemos. E sejamos claros: os estereótipos tanto viajam para sul como viajam para norte.

 

As palavras de Jeroen Dijsselbloem, chegadas com o princípio da primavera, chocaram particularmente porque a conversa estereotipada usa-se no café, mas não na imprensa. Dijsselbloem esqueceu-se deste pormenor, porventura por estar a fazê-lo entre amigos do Norte. E esqueceu-se, também, que um político deve ter duplo cuidado com o que diz. 

                      

E é talvez aqui que parece estar o problema. Durante anos, o cuidado foi tanto com o que se dizia que agora parece que o importante é dizer tudo o que se pensa. Passámos do tempo do politicamente correto à era da "autenticidade". Só que esta é uma falsa autenticidade: ser desbocado não é ser autêntico. Daí que pareçamos ter chegado à era da boçalidade, da política da ofensa baseada no estereótipo. Os políticos que deviam ter cuidado com isto são os que mais se apressam a descuidar-se.

 

O processo tem barbas. A imprensa dos países do Norte civilizado não teve pejo em juntar os do Sul semibárbaro no acrónimo PIGS. A senhora Merkel, hoje tomada como um exemplo de moderação, veio dizer que cá por baixo se gozava de períodos de férias demasiado longos - um prelúdio para a variação introduzida pelo holandês insensato. Mas há mais, evidentemente, por esse mundo fora. Nos EUA, Trump lidera a luta contra os "bad hombres" mexicanos. Duterte, o Dirty Harry de Davao, chama os nomes que quer a quem lhe apetece. E o Sr. Erdogan, na sua deriva totalitária, chama fascistas a todos - um pouco à semelhança daquele que, por roubar, acha que à sua volta são todos ladrões.

 

O mundo político passou do oito para o oitenta. Tenhamos por isso cautela com os chefes que escolhemos. Mas não deixemos de refletir sobre o subtexto do estereótipo. Dijsselbloem é um político insensato, mas o estereótipo não foi ele que o criou. Se atacarmos o fundo de verdade desta simplificação mentirosa, não nos poderemos dar mal com isso.

 

Professor na Nova School of Business and Economics

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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