Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 16 de abril de 2019 às 21:00

A procura e a oferta no populismo

Invariavelmente, "os políticos populistas dividem o mundo em dois, sendo que de um estão as virtudes das pessoas comuns, e do outro, os pecados de uma elite corrupta."

São as pessoas infelizes que votam nos partidos e nos políticos mais populistas? Confesso que dei um salto quando vi a questão no World Happiness Report 2019, divulgado há dias. Mais pertinente ainda quando se constata que Portugal ocupa o triste 66º lugar no ranking de felicidade, 36 países abaixo da vizinha Espanha.

 

Mas se a formulação da pergunta é um princípio, encontrar a resposta não é fácil, refere o relatório, logo para começar porque não havendo uma definição fechada de populismo, é complicado promover estudos empíricos e medições. Ainda assim é possível encontrar um denominador comum já que todos, à sua maneira, professam uma visão "anti-establishment". Invariavelmente, "os políticos populistas dividem o mundo em dois, sendo que de um estão as virtudes das pessoas comuns, e do outro, os pecados de uma elite corrupta."

 

Ao estudarem os fenómenos Le Pen, Trump e Brexit, entre outros, os mais diversos investigadores garantem que os sentimentos de mal-estar, o pessimismo em relação ao futuro, e o receio da insegurança financeira estão mais presentes nos eleitores de líderes populistas, do que naqueles que votam nos partidos mais institucionais. Mas alto, diz o relatório, a equação a resolver é bem mais complicada do que parece, já que se é verdade que a) as pessoas mais infelizes tendem a apoiar as atitudes mais populistas e autoritárias, é preciso ter em conta que b) não houve qualquer crescimento geral da infelicidade. Nem a nível mundial, nem tão pouco neste nosso lado do planeta.

 

Há, no entanto, um indicador que mexeu, o chamado "efeito negativo", que mede a frequência com que as pessoas registam sentimentos de preocupação, tristeza e raiva. E esse, é verdade, cresceu muito na Europa Ocidental, a partir de 2010. As datas coincidem.

 

Mas há mais hipóteses, seguramente complementares. Provavelmente o populismo crescente não se explica tanto por factores do lado da "procura", as pessoas infelizes, mas antes do lado da oferta, ou seja dos políticos populistas. Por outras palavras, aconselham, é fundamental estudar como é que estes líderes têm encontrado formas de apelar, descobrir e ativar os ressentimentos acumulados das pessoas insatisfeitas.

 

Porque, ninguém tem dúvida de que muitas destas ideias primárias sempre existiram na cabeça de muita gente, que só não as expressavam por pressões culturais e sociais. Quando essas condições mudaram, sentiram-se autorizadas a fazê-lo. E o relatório aponta os ingredientes que tornaram essa manifestação possível, como por exemplo a secularização do mundo ocidental, o uso crescente das redes sociais como fonte de informação, ou a descredibilização que as elites sofreram depois da crise económica de 2008 - e de outros "escândalos" semelhantes (coisa que não nos tem faltado).

 

Há, no entanto, uma suposta causa que os especialistas eliminam desde já: a ideia de que a revolta popular resulte das desigualdades de bem-estar que seriam crescentes. Refutá-la é simples, dizem, pela simples razão de que não houve qualquer aumento destas desigualdades na Europa ocidental nas últimas décadas. Decididamente é preciso não combater o populismo com "verdades" populistas.

 

Jornalista

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