Jorge Marrão
Jorge Marrão 07 de março de 2018 às 20:58

A requalificação política 

Se permanecer no meio da ponte, a acudir à vozearia dos consensos ocos, definhará, ou ajudará à criação de populismos indesejáveis ou a manter o impasse da renovação.

A FRASE...

 

"O que nós dizemos é que o CDS é um partido com vocação de poder."

 

Entrevista de Nuno Melo, Jornal I, 2 de Março de 2018

 

A ANÁLISE...

 

A intervenção da troika, o governo PSD/CDS de Passos Coelho, a crise bancária e a dos seus acionistas e o ativismo judicial dos procuradores da República, que ninguém percebe como dosear, abalaram o edifício republicano deste regime nas suas fundações. Estamos a tapar as brechas, a atar pilares pretensamente novos aos velhos, estes totalmente danificados, e a pintar as paredes para ocultar o sucedido. O país político está em modo de requalificação urbana. Os partidos também o estão. Não há dinheiro português (poupança nacional) para uma estratégia. E o Ministério Público está a sentar os atores do regime no banco dos réus. Tudo contrasta com o que eram os partidos do passado arco de governação. A mudança do PCP, que apoia agora o PS, por abandono da pureza messiânica, sujando as mãos com a realidade governativa, a chegada do BE fascinado com o poder de ter poder, e a lenta revolução que está a acontecer dentro do CDS, assente num pragmatismo da sua líder, irão na certeza abrir frechas significativas no PS e PSD. As ideologias têm mesmo de ser engavetadas.

 

As eleições ganham-se com personalidades e ideias-força. Mais tarde, os ideólogos classificam-nas à esquerda ou direita, sem que o eleitorado queira saber disso. O PS que sempre concebeu o poder como "founding father", tendo-o ou não, sabe como poucos como o usar, dominar ou aniquilar as posições dos interesses da sociedade, desde empresários, sindicatos, homens da cultura, funcionários públicos, trabalhadores e pensionistas, apelando ao (in)consciente socialismo, ou criando complexos de culpa e de esquerda, num país que ainda se sente pobre, apesar de ter dos melhores indicadores dos países da OCDE. A sua lógica de "founding fathers" dá-lhe a superioridade moral para se apresentar a eleições e formar coligações à esquerda e direita. O PSD, ou será papel de embrulho, ou partido renovador. Se permanecer no meio da ponte, a acudir à vozearia dos consensos ocos, definhará, ou ajudará à criação de populismos indesejáveis ou a manter o impasse da renovação.

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

 

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comentários mais recentes
Desanimado 08.03.2018

Parece-me que antes de requalificar políticos talvez fosse melhor começar por requalificar gestores.
http://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/deloitte-paga-as-mulheres-britanicas-menos-43-do-que-aos-homens?ref=camilo-lourenco_UltimasHP

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