Fernando  Sobral
Fernando Sobral 08 de março de 2018 às 19:53

A revolta italiana

A ocupação nasceu de um sonho: o poeta avançou para ela disposto a redimir a Itália. Afinal ele sempre se viu como o reflexo do seu herói romântico, Garibaldi, que unificara o país.

De um momento para o outro a verve nacionalista e radical do poeta Gabriele D'Annunzio e do futurista Marinetti volta a estar na moda em Itália. Como se o passado se repetisse, embora com actores muito sofríveis. Podemos perguntar: Gabriele D'Annunzio foi um poeta da guerra ou um profeta da guerrilha em que as palavras eram metralhadoras? Foi tudo isso, porque ele não se refugiava em fronteiras. Era um "poeta de acção", como escreveu António Ferro, admirador imoderado do poeta italiano. D'Annunzio escreveu no fogo e incendiou as almas. A sua poesia era como os seus discursos ou a sua tempestuosa vida amorosa: uma arte marcial. Foi tudo: poeta, aviador, demagogo nacionalista, herói da guerra. Considerou-se o bardo de Itália, só comparável a Dante ou a Leopardi. Mas foi no terreno do confronto que deixou a sua mais bela poesia. Este poeta perdido viveu numa Europa confusa e contraditória (como hoje).

 

O grande e feroz acontecimento que o projectou no mundo foi a ocupação, em 1919, da cidade de Fiume, que fazia parte do Império Austro-húngaro, que D'Annunzio considerava fazer parte de Itália e que as potências vencedoras da I Guerra Mundial decidiram oferecer à nova Jugoslávia. É esse o epicentro da vida de D'Annunzio: foi ali que concretizou a sua poesia de guerra. Fiume foi um sonho. Durante pouco mais de um ano cresceu ali uma cidade-estado, imune a pressões, libertária e sedenta das palavras do seu mestre. Foi a sua cidade utópica, aquela que António Ferro descreveria nas páginas de O Século.

 

A ocupação nasceu de um sonho: o poeta avançou para ela disposto a redimir a Itália. Afinal ele sempre se viu como o reflexo do seu herói romântico, Garibaldi, que unificara o país. Partiu para lá no seu Fiat vermelho com 186 seguidores. Pelo caminho foi conquistando desertores do exército italiano que tinham ordens para o fazer parar. Ali fez discursos sem parar durante 15 meses, com os seus seguidores de camisa negra, sobre a sua visão de uma Grande Itália. Mussolini chamar-lhe-ia "o Primeiro Duce". Mas, por trás desta poesia política, vivia-se uma orgia dionisíaca, com vinho, ópio e cocaína. Sucediam-se paradas sem fim à luz de tochas e fogo-de-artifício. Os bordéis estavam cheios. Discorreu sobre a necessidade de um grande conflito de raças para purgar a sociedade com fogo e sangue. Enquanto isso polvilhava-se de perfume.

 

O local transformou-se num laboratório político que atraiu fascistas, futuristas, membros do Sinn Féin irlandês, nacionalistas da Índia e do Egipto e, claro, agentes secretos britânicos. Lenine mandou-lhe caviar e chamou-lhe "o único revolucionário da Europa". Uma batalha real, com granadas verdadeiras, decorreu enquanto se tocava a "Quinta Sinfonia" de Beethoven. D'Annunzio declarava guerra ao seu próprio país antes de ser escorraçado por um bombardeamento naval. A eloquência foi, até ao fim, a forma de ser o poeta da acção. Quis criar a "política da poesia", até porque nessa altura os poetas atraíam as massas. Gostava de dizer: "Eu sou latino" e defendia uma "política latina", contra os "bárbaros" alemães e anglo-saxónicos. Por isso nunca gostou de Hitler. Hoje, entre a Liga e o 5 Estrelas, a história do bardo evoca uma Itália que ainda busca reencontrar-se.

A sua opinião0
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
comentar
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
pub