João Borges de Assunção
João Borges de Assunção 23 de agosto de 2018 às 20:05

A saída limpa da Grécia

Tal como em Portugal, a saída limpa da Grécia será rapidamente esquecida. Os eleitores atribuirão a culpa de uma futura crise aos outros. E continuarão a votar em quem lhes prometer os benefícios que ambicionam.

Ao fim de mais de oito anos e três programas de ajuda por parte do FMI, União Europeia e Banco Central Europeu a Grécia saiu finalmente do seu programa de estabilização financeira.

 

Do ponto de vista da Zona Euro e da União Europeia, este é obviamente um momento importante que marca o fim da crise das dívidas soberanas da Zona Euro, que se desenvolveu na sequência da crise financeira americana e da Grande Recessão mundial de 2007-2009.

 

Do ponto da vista da Grécia, porém, este período é uma verdadeira tragédia. Com perdas acumuladas de Produto Interno Bruto semelhantes às que se observam durante as guerras.

 

A Grécia foi o primeiro país desenvolvido a falhar pagamentos ao FMI.

 

A tragédia grega dos últimos dez anos tem de tudo em termos políticos, económicos e sociais.

 

E ainda hoje, a interpretação dos acontecimentos gregos influenciam fortemente as opiniões dos cidadãos europeus e dos observadores internacionais. As opiniões sobre a crise grega são reveladoras da nossa mundividência social.

 

Tal como Portugal, a Grécia não estava devidamente preparada para a adoção do euro: uma moeda forte, com inflação baixa e sem grandes desvalorizações cambiais.

 

Isso não era óbvio, pelo menos para mim, em 1999 quando Portugal, como membro fundador, e a Grécia, em 2001, dois anos depois, integraram o euro.

 

A gestão económica, orçamental, política e social dos países teria de mudar. Mas as elites políticas e económicas não se aperceberam disso. E trataram as regras da Zona Euro como muitos bancos e empresas tratam os seus auditores: como algo que existia para se contornar.

 

As consequências para a Grécia foram desastrosas. Ter sido o primeiro país da Zona Euro a sentir os efeitos da ditadura dos mercados de obrigações agravou muito a crise grega. Os outros países mais frágeis como Portugal, Irlanda e Espanha beneficiaram pelo mero facto de se aperceberem de fora dos enormes custos do processo de ajustamento grego. Se tivéssemos sido nós os primeiros também teríamos sofrido muito mais: um exemplo da desvantagem de ser o primeiro a jogar.

 

A crise grega foi espoletada pelo clássico truque político da pesada herança. O governo grego do Pasok, saído das eleições de 2010, decidiu revelar que o défice público deixado pelo governo anterior da Nova Democracia seria muito maior, cerca de 12,5% do PIB. A Grécia, tal como Portugal, mas em maior escala, estava a contornar as regras do euro quase desde o início.

 

O sistema político acabou por implodir, o que é uma consequência razoável de oito anos de contração do produto, desemprego próximo de 28%, dívida pública de cerca de 180% do produto. Os salários na função pública e as pensões tiveram cortes que nalguns casos chegaram a 45% e continuam nos próximos anos.

 

Os gregos decidiram eleger um governo inexperiente, impreparado e dos radicais de esquerda do Syriza, em 2015, que prometeu uma alternativa económica, social e política. Depois de dois anos inenarráveis com ameaças aos parceiros europeus, um referendo, e divisões internas entre fações com graus diferentes de extremismo ideológico, o governo grego acabou por implementar uma versão do programa de ajustamento bem mais dura do que aquela que tinha sido travada na rua em 2010-2012. Em parte por aqueles que estão agora no Governo.

 

A União Europeia e a Alemanha cometeram erros na condução do apoio à Grécia. E muitas das regras da Zona Euro negociadas no Tratado de Maastricht revelaram-se ineficazes ou mesmo contraproducentes. Porém, a Grécia é uma democracia soberana, não uma ditadura, pelo que as decisões são tomadas pelos eleitores ou os seus representantes.

 

Os gregos votaram ao longo dos anos, após a adesão ao euro, de acordo com a sua interpretação dos seus interesses. A posteriori é fácil para os observadores internacionais dizerem que os eleitores gregos fizeram más escolhas. Mas na altura os gregos não acharam isso.

 

Tal como em Portugal, a saída limpa da Grécia será rapidamente esquecida. Os eleitores atribuirão a culpa de uma futura crise aos outros. E continuarão a votar em quem lhes prometer os benefícios que ambicionam. Mesmo uma crise tão profunda como a grega não deverá ser suficiente para mudar a forma de pensar da maioria dos eleitores gregos.

 

Tal como em Portugal, o regresso ao passado é o principal risco da saída limpa grega.   

 

Professor na Universidade Católica Portuguesa

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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