Fernando  Sobral
Fernando Sobral 15 de fevereiro de 2018 às 20:55

A santa aliança alemã

Ninguém fica indiferente à Alemanha. Porque se tornou o coração da Europa unificada e Angela Merkel, nos últimos anos, acabou por ser a sua face.

Quando assistimos há meses a um desgastante exercício político para se conseguir um governo estável em Berlim, que acabou por se tornar realidade através de uma "santa aliança" entre a CDU e o SPD, isso apenas contribuiu para se perceber que uma ausência de poder central na Alemanha tem sérias implicações na Europa. Mesmo que Emmanuel Macron, tentando recolocar a França no centro da política decisória europeia, tivesse tentado ocupar um espaço perdido.

 

O certo é que, após semanas de intensas negociações (que acabaram num acordo mas alienaram as juventudes do SPD e implicaram a queda de Martin Schulz), chega-se à conclusão que foram os perdedores que acabaram por vencer. Por um lado, depois de uma humilhante derrota, os sociais-democratas conseguiram alguns ministérios poderosos no futuro governo alemão. E Angela Merkel, para se manter como Chanceler durante mais quatro anos, ofereceu aquilo que o SPD queria. E estes, a maior parte deles desconhecidos fora da Alemanha, vão definir em parte a estratégia alemã na Europa. Olaf Scholz, o governador da cidade-Estado de Hamburgo, deverá ser o ministro das Finanças e é desalinhado com a política austeritária do seu antecessor Wolfgang Sch-äuble. Segundo se diz está mais próximo de Emmanuel Macron, defendendo um orçamento comunitário mais vasto e um ministro das Finanças da UE. No Trabalho e Segurança Social deverá ficar Eva Högl, defensora de uma legislação laboral mais rígida. E resta agora saber que ideias existem para a Europa unificada e para o seu lugar neste mundo globalizado. As relações com a Rússia também vão estar à prova: o SPD não gosta da postura agreste da UE para com Vladimir Putin.

 

Que poder sobra então para a "imperadora da Europa", como era designada Merkel, ela que geriu a Alemanha e o Velho Continente na última década? A situação alemã acaba por ser mais complicada porque há falta de liderança na Europa. A braços com o Brexit, Theresa May vai-se afundando no nº10  de Downing Street. E Macron, mesmo com o seu ar fresco, continua a não conseguir dar a volta à França. A Espanha defronta-se com o problema secessionista catalão, o que enfraquece o poder em Madrid. A Itália prepara-se para eleições e ninguém sabe o que sucederá. E, no leste, os desafios à UE são cada vez mais audíveis. E, mesmo na Alemanha, os populistas de extrema-direita do AfD começam a ter uma palavra a dizer no futuro.

 

Ou seja, numa altura em que grandes blocos político-económicos vão redefinindo a política mundial, a Europa parece incapaz de ter um poder central capaz de definir uma estratégia coerente. Por outro lado, mesmo a nível da UE, há uma sensação de que os próximos anos vão necessitar de reformas que permitam uma Europa preparada para os novos desafios, da segurança ao alargamento e às questões energéticas. E para novas crises financeiras. Ou seja, ninguém ainda consegue definir qual vai ser o ritmo com que vai bater o coração do poder em Berlim. O que não é uma boa notícia.

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