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Leonel Moura leonel.moura@mail.telepac.pt 22 de Setembro de 2016 às 21:05

A sociedade insuportável

O nível do debate político em Portugal anda muito baixo. Raramente se passa da acrimónia, da ofensa ou se esclarece alguma coisa. A agressividade e a demagogia também têm aumentado bastante. É o que temos.

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Agravado pelo facto de a direita não aceitar a solução à esquerda e não conseguir ultrapassar o trauma.

 

Veja-se o recente debate sobre o novo imposto a aplicar ao património imobiliário de elevado valor. Muita gente, mesmo do PS, ficou escandalizada porque uma deputada do Bloco veio anunciar que a medida estava em estudo. Qual é o problema? Nenhum. Os dois partidos assumem que discutem regularmente este e outros temas. Qual é o problema de se falar de algo que ainda não está totalmente definido? Nenhum. De contrário não havia debate, mas mero anúncio. Discutir as coisas antes de elas se formalizarem é, não só democrático, como importante para melhorar a opção final. A ideia de que iniciativas deste tipo devem ser elaboradas no recato dos gabinetes é velha, retrógrada, não corresponde à sociedade aberta e participativa que tanto se apregoa. Deve discutir-se tudo. Ponto.

 

Infelizmente falou-se muito, mas discutiu-se seriamente pouco. A direita fixou-se na pessoa de Mariana Mortágua, procurando gerar atrito entre Governo e Bloco. É natural. Quanto ao resto optou pela desinformação para amedrontar os portugueses. Uma medida que irá afetar uns, poucos, milhares de contribuintes extremamente ricos depressa se tornou num ataque à classe média. É ridículo, é mesmo desonesto, mas é assim que se faz política em Portugal. Caricato é ver tanto remediado preocupado com a sorte dos muitos ricos.

 

A medida é aliás irrisória. O próprio Governo de Passos Coelho aplicou algo semelhante, tributando ativos imobiliários acima de um milhão de euros, com o argumento de que é "àqueles que têm mais que nós pedimos um contributo maior". Nessa altura Passos achou normal que se exigisse mais a quem mais tem. O que mudou então? Nada. Ou melhor, mudou o Governo.

 

No concreto trata-se de um pequeno contributo, irrelevante para os afetados, sem efetivo impacto económico como se pretende para meter medo, e que, em boa verdade, não resolverá o sério e não exclusivamente português problema social com que estamos confrontados.

 

O fosso social não tem parado de aumentar criando uma sociedade dividida em dois tipos. Os que têm acesso a tudo e os que vivem numa constante precariedade e luta pela mera subsistência. Acrescente-se que quando falamos hoje em "ter tudo" não referimos só dinheiro. Estamos a caminhar para um tempo de cuidados de saúde altamente sofisticados, que abrem a possibilidade de prolongarmos a vida, se não pela eternidade, por muitos e muitos anos. Estas tecnologias serão acessíveis aos muito ricos e deixarão de fora todos aqueles que não podem pagar, ou seja, a vasta maioria dos cidadãos. No futuro, ter tudo é sobretudo ter uma qualidade e um tempo de vida que excederá largamente o da maioria.

 

Estamos a gerar uma sociedade altamente desequilibrada, insuportável, que provoca muita miséria e inevitáveis conflitos. Quando 1% da população mundial tem a mesma riqueza dos 99% restantes só podemos esperar sarilhos. Não há esquerda ou direita, argumento económico ou interesse patrimonial que justifique uma tal situação. Que aliás não funciona. Ao contrário do que afirmam alguns "especialistas", todos os estudos demonstram que a concentração de riqueza só gera mais concentração de riqueza, nunca distribuição e nem sequer mais investimento.

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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