Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 13 de março de 2018 às 23:01

A subvalorização de Assunção Cristas

Quando Assunção manifestou o interesse em suceder a Paulo Portas, ainda longe das últimas legislativas, muitos - principalmente no CDS - disseram que se estava a colocar "em bicos de pés". No momento da sucessão, foi a única que se chegou à frente.

Muita gente está incomodada com a audácia de Assunção Cristas no Congresso do CDS. Com aquela portuguesíssima incredulidade perante a ambição alheia (especialmente, já sabemos, a ambição feminina), há quem lhe critique o "irrealismo" e a "imprudência" - ou, como no caso do psicólogo instantâneo Marques Mendes, a "megalomania".

É curioso: há anos que as mesmas pessoas andam a explicar os obstáculos no caminho de Assunção, sem se aperceberem de que ela os tem vindo a derrubar a todos. Algumas qualidades lhe terão de reconhecer. Mas se calhar, para bem de Assunção, o melhor é permanecermos assim: talvez a sua maior sorte seja mesmo essa subvalorização por parte dos seus críticos. Não há melhor arma do que um adversário distraído.


Quando Assunção manifestou o interesse em suceder a Paulo Portas, ainda longe das últimas legislativas, muitos - principalmente no CDS - disseram que se estava a colocar "em bicos de pés". No momento da sucessão, foi a única que se chegou à frente.


Quando foi eleita, asseguraram que não se libertaria do fantasma tutelar de Portas. Hoje é elogiada por ter conseguido "matar o pai".


Quando pegou no CDS, previram a impossibilidade de unir um partido de facções irreconciliáveis. Há dias foi consagrada líder incontestada.


Quando explicou ao que vinha, apostaram que a sua vocação de abrangência e contemporaneidade seria destruída por um partido alegadamente entrincheirado numa doutrina retrógrada. Pois aí têm agora Assunção Cristas: a declarar-se "orgulhosa" do seu vice-presidente e braço-direito, homossexual assumido e popularíssimo dentro e fora do CDS; a anunciar-se "pragmática" no congresso, com dicção inequívoca e desafiante; e a escutar de Adriano Moreira o elogio que desarma os (poucos) críticos internos: "A liderança já está entregue à geração que recebe, sem benefício de inventário, a defesa dos valores da democracia cristã." "Agora é preciso olhar para a mudança do mundo e adaptar a intervenção."


Além de tudo isto temos, é claro, Lisboa. Quando Assunção anunciou a sua candidatura, os pessimistas enviaram os exércitos: era uma loucura, um suicídio, um risco desnecessário para a líder e para o partido. Até ao início da campanha eleitoral, as sondagens não eram auspiciosas. Quando as pessoas começaram a escutar, quando viram Assunção no primeiro debate televisivo, tudo mudou.


Ainda assim, a poucos dias das eleições, Manuela Ferreira Leite não tinha dúvidas: "O PSD é um partido de maior expressão, muito mais do que quem pensa que pode ficar em segundo lugar. A diferença entre a dimensão dos partidos não tem qualquer hipótese de comparação."


O resto é história: 21%, o dobro do PSD, liderança da oposição municipal, fim da maioria de Medina.


A subvalorização, porém, continua. Há quem ache que o sucesso de Lisboa é irrepetível. Eu acho que é paradigmático. Porque mostrou o maior talento político de Assunção Cristas: saber aproveitar o contexto, criar o contexto, forçar o contexto, perceber onde estão a brechas que pode alargar para iluminar o seu percurso.


E qual é, agora, o contexto? É, muito à semelhança de Lisboa, o de uma esquerda que se julga imbatível, um PSD que se julga dono dos votos, sem estratégia de oposição, preso entre lutas internas e o cortejo do poder instalado, e um CDS que se vai rejuvenescendo, apurando a mensagem, alargando a base eleitoral, ganhando balanço e boa vontade, e declarando o fim do voto útil, com a velha táctica de Tony Blair: "Remind and repeat, remind and repeat, remind and repeat." 

 

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